Refugiados batendo um bolão

Após terremoto no Haiti, jogadores formam time Pérolas Negra, superam obstáculos e são campeões

Por FRANCISCO EDSON ALVES

A comissão técnica e os jogadores do Pérolas Negras, no campo onde há um ano era um curral. Força de vontade que resultou em título
A comissão técnica e os jogadores do Pérolas Negras, no campo onde há um ano era um curral. Força de vontade que resultou em título - Ernesto Carriço

Há um ano, eles transformaram um curral de gado em Paty do Alferes, no Sul Fluminense, em campo de futebol. Resultado: da manjedoura nasceram os campeões, no dia 19, da Série C (quarta divisão) do Campeonato Carioca deste ano, e que agora estão aptos à disputar, em 2018, a Série B2, a terceira divisão. Trata-se do Pérolas Negras, formado por jovens haitianos, o primeiro time profissional de refugiados do Brasil. A mais nova sensação do futebol estadual impressiona pela força de vontade e pretende dar chances também a jogadores de outros países com graves problemas sociais, como Síria, Jordânia, Iraque e Venezuela.

Com faixa etária entre 17 e 20 anos, os jogadores, que recebem em média R$ 1 mil por mês, foram selecionados em peneiras a partir de 2011 pelo projeto social Academia Pérolas Negras, da ONG Viva Rio. As escolhas foram feitas ainda entre as ruínas do terremoto que matou 200 mil no Haiti. A equipe Sub-20 do Pérolas também foi campeã da competição, invicta.

"Superando traumas e a saudade dos parentes e amigos, o elenco demonstrou seu valor com a bola nos pés, transformando dor em gols", afirmou o técnico Rafael Novaes. Na quarta-feira ele se reuniu com os atleta no antigo hotel-fazenda Quindins, fundado em 1828, para avaliar a campanha.

O imóvel, onde cocheiras de cavalos agora servem para guardar materiais esportivos, foi arrendado por dez anos pelo Viva Rio, com patrocínio de empresa de alimentação e apoios locais. Aos poucos, um centro de treinamento, com sala de aula de português, de reabilitação, fisioterapia, e departamento médico, vai surgindo.

Na pacata cidade de 25 mil habitantes, a 112 km do Rio, os "pérolas negras", como são conhecidos, mexem com a rotina do município, onde são matriculados no Ensino Fundamental e tratados como heróis. "Paty deixou de ser conhecida só como a maior produtora de tomates do estado. Agora, também é a cidade dos pérolas negras", destaca, orgulhoso, o fisioterapeuta Rafael Guiducci,

Em tom de brincadeira, ele dedura que alguns craques, como o zagueiro Badio, de 17 anos, e o lateral direito Elison Ducé, de 19, já têm até paqueras na região. Tímidos, eles desconversam. "Fôfôca (carregando no sotaque) 'brôther'", resume, bem-humorado característica, aliás, do grupo , o atacante Davidson, de 19 anos.

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Os haitianos do Pérolas Negras e a taça de campeões erguida no dia 19 Vitor Madeira
A comissão técnica e os jogadores do Pérolas Negras, no campo onde há um ano era um curral. Força de vontade que resultou em título Ernesto Carriço

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