Bia Willcox: Fellini o gato

Não existe 'mais do mesmo' para um gato. E é isso que os faz tão incríveis

Por O Dia

Rio - Há poucos dias recebi um novo habitante na minha casa. O nome dele é Fellini, um gato do qual minha filha se intitula mãe (e o trata como tal). E, em pouquíssimo tempo, me peguei cometendo um erro de principiante — coisa que quem já é antigo dono de gato já deve saber há tempos: me peguei pensando: “Esse gato pensa que é gente!” Não existe um equívoco maior que esse. O gato pensa que é gato mesmo, e na sua mentalidade felina essa condição goza de um status superior do que o de gente. Gatos são livres e seguros de si. Demonstram uma soberania quase condescendente. Mas estão muito longe de serem menos amáveis por conta disso.

Fellini o gatoArte O Dia


Assim, todo o gato é como o gato preto que Murakami relata em ‘Kafka à Beira Mar’. Ao ser indagado pelo senhorzinho Nakata sobre seu nome, responde assertivamente o gato: “Esqueci. Não é que não tenha um nome, mas deixei de necessitá-lo e acabei por esquecê-lo”. Hoje, com Fellini, ficou evidente o que Murakami quis dizer. Nomes e denominações são coisa de gente, coisas absolutamente frívolas para os olhares despertos de um gato.

Ao mesmo tempo, coisas aparentemente bobas para a gente, como uma bola de papel, são mais entretenimento para um gato do que uma série da Netflix para a gente. O gato é um ser que vê a tudo com interesse e estupefação, como se visse pela primeira vez. Não carregam aquele peso do cotidiano, tampouco são seres entediados, como alguns podem pensar. Não existe “mais do mesmo” para um gato. E é isso que os faz tão incríveis. Penso que, provavelmente, eles devam estar certos e nós é que, por vezes, devemos pensar que somos gatos. (Com a colaboração luxuosa da minha filha Giulia)


Últimas de Diversão