Antes de sorteio da Copa, entrevista expõe tensão entre organizadores e imprensa

Evento se transformou em uma troca de acusações e pressões sobre doping, corrupção e o futuro do Mundial

Por O Dia

Rússia - O objetivo era realizar uma coletiva de imprensa com os dois principais nomes da Copa do Mundo de 2018 para promover o sorteio que ocorre em Moscou a partir das 13 horas desta sexta-feira (horário de Brasília). Mas o evento se transformou em uma troca de acusações e pressões sobre doping, corrupção e o futuro do Mundial.

No palco, Vitaly Mutko, vice-primeiro-ministro russo, e o presidente da Fifa, Gianni Infantino, iniciaram o "talk show" no Palácio do Kremlin com palavras amenas, indicando que se tratava de um evento "histórico e emotivo". Já o suíço chegou a falar que o Mundial na Rússia será "o melhor da história" e que nunca havia visto um compromisso tão grande em um evento quanto o do governo de Vladimir Putin.

A primeira pergunta aos jornalistas foi dada para a agência estatal russa, que cumpriu seu papel oficial de perguntar sobre como o país estava preparado. O apresentador do debate, também de uma TV russa, insistia em perguntas positivas aos dois protagonistas. Mas ela rapidamente ganhou um tom de tensão quando o microfone começou a percorrer o salão.

Um dos jornalistas perguntou sobre a situação de Mutko, acusado em investigações da Agência Mundial Antidoping (WADA, na sigla em inglês) de ter organizado um "doping de estado" para os atletas russos, inclusive no futebol. Infantino garantiu que isso não afeta a Fifa, ainda que o russo seja o organizador da Copa. "Não participamos de especulações", alegou, insistindo que nenhum jogador da seleção russa foi pego no doping.

Mutko, por seu lado, tomou as dores de ser acusado às vésperas de seu próprio evento. "Aqui na Rússia parece que sempre fazemos as coisas erradas", atacou, lembrando que os Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi-2014 foi alvo de críticas e que até citaram a existência de peste no país.

Mas o russo partiu para o ataque quando passou a acusar a imprensa e, em especial o jornal The New York Times, de ser "porta-voz" do Comitê Olímpico Internacional (COI). "Parece que eles têm esse papel", disse, ao ser questionado se temia ser suspenso. "Talvez vocês já sabem. Eu não sei", disse.

O vice-primeiro-ministro, mergulhado no escândalo, alertou que não cabe ao COI ditar o que um país deve fazer e perguntou por qual razão não se abriam inquéritos contra o doping na Noruega, Inglaterra ou nos Estados Unidos. "No nosso caso, não existem provas. Apenas alegações e estão tentando nos desacreditar. Eu sei muito bem o que está ocorrendo aqui", disse. "Só se fala coisa ruim da Rússia e o resto está bem?", questionou.

Para ele, até mesmo os chefes da Associação Internacional de Federações de Atletismo (IAAF), acusados de ter recebido propina do Rio de Janeiro para sediar os Jogos Olímpicos, "foram presos por nada".

Conforme as perguntas eram feitas, o apresentador e os principais atores no palco insistiam em pedir que questões "positivas" e sobre a Copa fossem realizadas. Mas, para a frustração dos organizadores, isso não ocorria.

Nas cordas, Mutko apenas respondia à pressão internacional com novos ataques. "Não existe um programa de estado. Não precisamos disso. São meras especulações", insistia. "De repente, estamos sendo denunciados como o pior dos piores. Façam os testes em outros países e verão que terá nos outros", dizia.

Ao longo da coletiva de imprensa, Infantino ainda foi perguntado de forma insistente sobre o julgamento dos cartolas em Nova York e apenas deixava claro que os problemas de corrupção faziam parte do passado. Mas pedia "tolerância" aos acusados e que se esperasse até o final do processo.

Quando foi questionado sobre a corrupção no Catar para a Copa do Mundo de 2022, apenas respondeu que o maior escândalo até hoje de compra de votos ocorreu nos EUA, com os Jogos Olímpicos de Inverno de Salt Lake City, em 2002.

Ao terminar, Mutko foi questionado se sentia envergonhado da onda de perguntas e críticas sob as quais foi submetido, em pleno Kremlin. "Não tenho nada a me envergonhar", completou.

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