Euforia com aceno de 2° turno

Há muita curiosidade em se saber como o BC vai conciliar o discurso da “vigilância tempestiva” com os sucessivos e apavorantes informes sobre o mergulho sem fim da atividade econômica

Por O Dia

Apesar de localizada nos extremos estatísticos, a chance de haver um segundo turno nas eleições presidenciais de outubro euforizou os mercados na sexta-feira. A pesquisa Datafolha divulgada na noite de quinta-feira abriu essa possibilidade pela primeira vez. Os mercados de câmbio e juros passaram a prever uma luta encarniçada entre Dilma Rousseff e Aécio Neves no dia 26 de outubro, com o candidato tucano enfeixando o apoio da maior parte dos postulantes derrotados em primeiro escrutínio. 

Foi o que bastou para o dólar devolver porção considerável da alta detonada na véspera pela aversão medrosa a risco suscitada pela vaga de ódio que varre a Ucrânia e o Oriente Médio. Após ter subido 1,64% na quinta, a moeda desceu 1,35% na sexta, cotada a R$ 2,2283. Entre altos e baixos, no saldo da semana o dólar quase não saiu do lugar, evoluindo 0,31%.

No mercado futuro de juros da BM&F, o efeito da torcida por um segundo turno se traduziu na continuidade da queda dos contratos mais longos. Enquanto os mais curtos moderaram a aposta de que o Copom terá de, a contragosto, cortar a Selic para priorizar a recuperação econômica, a taxa do contrato com vencimento em 2017 — onde estão alojados em maior número os investidores estrangeiros — persistiu em declínio. A taxa cedeu de 11,29% para 11,20%. 

A explicação é simples: eleito, Aécio Neves nomeará ao Ministério da Fazenda o economista Armínio Fraga. Criador no Brasil do sistema de metas de inflação em 1999, lenda viva da política econômica neoclássica peessedebista, o ex-presidente do BC resgataria o tripé econômico e a credibilidade perdida. O resultado é a diminuição da inclinação positiva da curva de juros. Com a confiança e a expectativas restauradas, o BC não precisaria pagar juros muito altos para que as expectativas inflacionárias se tornassem benfazejas.

Por falar em expectativas, o pregão de DI futuro não acreditou muito no recado que o Banco Central endereçou na sexta-feira aos investidores: o de que não está pensando em reduzir a taxa Selic em 0,25% na próxima reunião do Copom, dia 3 de setembro. Na véspera, os DIs tombaram porque prevaleceu a interpretação de que a expressão “neste momento” foi deliberadamente mantida na nota pós-Copom para indicar o corte futuro. O BC mandou dizer que essa leitura pecava por excesso de imaginação criativa.

Mas os ajustes de alta sofridos pelos DIs curtos foram timidos. Não retornaram aos níveis praticados na quarta-feira. A taxa para a virada do ano, por exemplo, avançou de 10,71% para 10,73%, quando estava em 10,77% na quarta-feira. O pregão tem duas opções esta semana: ou trata de elevar os contratos até a próxima quinta-feira, dia em que será publicada a ata do encontro da semana passada, ou reduz o giro de negócios e espera por evidências mais concretas no documento.

Há muita curiosidade em se saber como o BC vai conciliar o discurso da “vigilância tempestiva” com os sucessivos e apavorantes informes sobre o mergulho sem fim da atividade econômica. Só daria para harmonizar a discrepância se emprestasse o jargão da ala de analistas que sofre de obsessão anti-inflacionária compulsiva. Esta corrente faz uso de um ferramental manjado contra o afrouxamento da política monetária: perda de credibilidade do BC, acusações de interferência política-eleitoreira na autonomia da autoridade, pressões cambiais e de preços administrados e margem estreita para acomodação de choques de oferta e externos.

Essa retórica será esgrimida de novo amanhã, quando o IBGE divulgar o IPCA-15 referente a julho. Deve vir perto de 0,25%, uma ótima desaceleração frente ao 0,47% de junho. Mas o que vai importar mesmo será o fato de que, pelo critério elegido como o mais correto por aquela ala, o do acumulado nos últimos doze meses, o índice subirá de 6,41% para 6,6%, já estourando com folga o teto da banda inflacionária. Essa é a inflação que já foi sentida no bolso, é o passado já contabilizado. Não seria a projeção para 12 meses no futuro a mais relevante? Talvez seja, porque é com ela que o BC abre o seu relatório semanal Focus. E o mais recente conhecido espera IPCA de 5,92% para os próximos 12 meses.

O mundo real não tem nada da narrativa inflacionária terrorista. Ele grita simplesmente o seguinte: não há minimamente qualquer risco de surto inflacionário nesse momento em que o crescimento econômico está negativo. Todo dia sai um dado ruim sobre o andamento da atividade econômica. Na sexta-feira, foi a vez do índice de confiança do empresário industrial apurado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). Na quarta queda em sequência, o indicador cedeu de 47,5 pontos em junho para 46,4 em julho.

Dois dados relevantes sobre o pulso da economia serão divulgados esta semana. Na quinta-feira, o IBGE informará a taxa de desemprego em junho. Deve aproveitar a ocasião para revelar a taxa relativa a maio, cuja divulgação foi impossibilitada por uma greve de funcionários do órgão. A expectativa é de que as duas pesquisas confirmem a debilidade do mercado de trabalho já constatada pelo Caged. Ainda sem data para sair, a Receita Federal divulga a arrecadação federal de junho.

A agenda americana, além de uma série de indicadores do setor imobiliário, se realça pela divulgação amanhã do Índice de Preços ao Consumidor (CPI, o IPCA deles) relativo ao mês passado. Em maio, o núcleo bateu nos 2% da meta do Federal Reserve (Fed), ascendendo uma luz amarela. Na sexta-feira, a temperatura da crise geopolítica abrandou-se e a taxa do título de 10 anos do Tesouro americano pôde subir de 2,45% para 2,49%.

Últimas de _legado_Notícia