Trunfo eleitoral

Pelo menos até as eleições, a inflação não será fonte de preocupação. O repasse ao varejo das deflações registradas no atacado nos últimos três meses ainda não se esgotou

Por monica.lima

A intransigência do Banco Central em não reduzir a Selic imediatamente apesar da sucessão de informes sobre a debilidade da economia pôde ser melhor compreendida a partir da divulgação de dois fatos interligados. A pesquisa eleitoral do Ibope e o IPCA de julho comprovam o acerto da prioridade máxima conferida pelo governo ao combate à inflação. A aprovação da presidente Dilma Rousseff subiu de 44% para 47%, enquanto que o índice oficial de inflação tombou de 0,40% em junho para 0,01% em julho. Como a estagnação econômica revelada pelos indicadores industriais, comerciais e de serviços ainda não chegou às ruas, o eleitor desloca a atenção para os preços. As posições anti-inflacionárias firmes do BC são um trunfo eleitoral inestimável nesse momento de corrida final até as urnas.

Divulgado na sexta-feira de manhã pelo IBGE, o IPCA fechado do mês passado pegou de surpresa os analistas especializados em prever o comportamento da inflação. Eles de fato suspeitavam que o índice seria muito baixo. Nas duas últimas semanas, vinham continuamente revisando os seus prognósticos. As primeiras estimativas, ao redor de 0,25%, baixaram para 0,15% quando saiu o IPCA-15 de julho, alta de 0,27%, com forte desaceleração em relação ao de junho, 0,47%. Cederam para 0,15% na última semana de julho e, finalmente, um dia antes da divulgação oficial, recuaram para 0,10%. O 0,01% foi uma surpresa total, abortando as críticas que seriam autorizadas a partir do incontestável rompimento do teto de 6,5% da banda inflacionária. Se as previsões se confirmassem, a taxa acumulada em 12 meses pelo IPCA pularia de 6,52% para 6,62%. Com a alta de apenas 0,01%, o acumulado recuou para 6,5%, exatamente na mosca.

Aberto o índice, novas revelações. Dos nove grupos de despesas pesquisados pelo IBGE, apenas três registraram avanço. E o conjunto de preços livres – os diretamente afetados pela política monetária contracionista hoje em vigência – passou de alta de 0,45% em junho para deflação de 0,10% em julho. O índice de difusão caiu de 61,39% para 58,98%. Diante do índice de julho, os economistas do Bradesco revisaram para baixo sua projeção de taxa para o acumulado de 2014, de 6,35% para 6,30%.

Pelo menos até as eleições, a inflação não será fonte de preocupação. Não será por causa dela que Dilma Rousseff não se reelegerá. O repasse ao varejo das deflações registradas no atacado nos últimos três meses ainda não se esgotou. E ainda há uma boa parte da alta de preços de hotéis ocorrida durante a Copa do Mundo que precisa ser devolvida. Em junho, as tarifas hoteleiras subiram 25% e, disso, apenas 8% foram descontados, segundo o Bradesco, o que sugere que também em agosto os hotéis registrarão uma deflação.

A estabilidade do IPCA derrubou os juros futuros. O contrato negociado na BM&F para janeiro de 2016 cedeu de 11,50% para 11,41%. E a taxa para janeiro de 2017 recuou de 11,79% para 11,66%.

A maior incerteza inflacionária provém da taxa de câmbio. O dólar já não age mais para segurar o IPCA. Sua influência agora é de alta. Mas o efeito da depreciação cambial sobre o índice ocorre somente no médio e no longo prazo. Mas é do interesse do BC evitar que o dólar vá além dos R$ 2,30. Na máxima de sexta-feira, a moeda chegou a ser cotada a R$ 2,3080. Os investidores globais estavam assustados com as consequências para as economias dos conflitos no Leste Europeu e no Oriente Médio. Se não bastasse a grave situação na Ucrânia, na sexta-feira Hamas e Israel retomaram as hostilidades e os EUA anunciaram sua disposição de atacar o Iraque. O momento em que o dólar alcançou o preço máximo coincidiu com o declínio do juro do título de 10 anos do Tesouro americano de 2,42% para 2,35%. Os investidores se sujeitam a ganhar menos nas “treasuries” a correr riscos em economias emergentes que podem ser abaladas por altas do petróleo e restrições de crédito resultantes das guerras. Depois que a Rússia anunciou o encerramento dos seus exercícios militares na fronteira ucraniana, a temperatura dos mercados diminuiu. E o dólar devolveu tudo o que havia subido no dia e mais um pouco. Fechou em queda de 0,40%, vendido a R$ 2,2868.

Mas a hora delicada recomenda ao BC o abandono de sua política, praticada desde março, de redução da oferta de hedge cambial. Todo o mês a autoridade resgata uma fatia entre 25% e 30% dos swaps cambiais a vencer. Este mês, dos US$ 10,07 bilhões que serão liquidados em 1° de setembro vem sinalizando a intenção de renovar apenas US$ 7,51 bilhões, levando à retirada de hedge de US$ 2,56 bilhões, ou 25,42% do total. O momento de incertezas globais requer a preservação de todo o estoque de hedge já presente no mercado (US$ 90,96 bilhões). Deveria aumentar a quantidade de swaps oferecida nos seus leilões diários de rolagem, atualmente em 8 mil contratos, de forma a revalidar integralmente o lote de US$ 10,07 bilhões.

A agenda econômica desta semana está carregada de eventos importantes. Mas nenhum deles, por piores que venham, deverá ter força para alterar a disposição do BC de não mexer na taxa Selic até o fim do ano. Na quinta-feira, o IBGE divulga a pesquisa mensal de comércio relativo a julho. E as projeções são de uma pequena alta, inferior a 1%. Na sexta, o BC publica o seu índice de atividades, o IBC-Br, também relativo a julho. A expectativa é de uma queda superior a 1%. Na semana, saem dois índices da FGV. Hoje, a primeira prévia do IGP-M de agosto, para a qual se espera nova deflação, ao redor de 0,30%. E, na sexta, o IGP-10 do mês. O impacto da atividade combalida sobre o ânimo dos eleitores pode merecer uma reavaliação dependendo dos dados do Caged relativos a julho que serão divulgados pelo Ministério do Trabalho.

O câmbio e os juros futuros irão operar de olho na oscilação do apetite global por risco, dependente da tensão geopolítica. Se tudo estiver mais calmo, pesará a agenda americana. Saem os primeiros dados sobre o desempenho dos EUA no terceiro trimestre, importantes para os analistas medirem o grau de sustentação do crescimento do PIB de 4% no segundo trimestre. Além do resultado fiscal e do PPI (inflação no atacado), serão divulgadas as vendas no varejo e a produção industrial referentes a julho.

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