Provisão para inadimplência no varejo subiu 30% no ano

Marisa, Riachuelo e Renner aumentam reservas para perdas esperadas por calotes de consumidores. Especialistas apontam incerteza no cenário econômico como fator-chave

Por O Dia

Na esteira da expansão da inadimplência não bancária, três das cinco maiores varejistas de moda que atuam no país registraram, nos nove primeiros meses do ano, aumento nas provisões para perdas esperadas por calotes de consumidores. Somadas, as projeções de Renner, Grupo Guararapes (Riachuelo) e Marisa para essas perdas totalizaram R$ 491,9 milhões entre janeiro e setembro deste ano, de acordo com as demonstrações financeiras das companhias referentes ao terceiro trimestre. O montante é 30% superior ao contabilizado no mesmo período de 2013 (R$ 378,2 milhões).

“A inadimplência normalmente sobe primeiro no segmento não bancário”, explica Luiz Rabi, economista da Serasa Experian, referindo-se às dívidas de consumidores junto a cartões de crédito, financeiras, lojas em geral e prestadoras de serviços como telefonia e fornecimento de energia elétrica, água etc. Em outubro, o indicador de inadimplência ao consumidor divulgado mensalmente pela Serasa Experian acumulava alta de 5,1% desde o início do ano, na comparação com igual período de 2013. “Enquanto a inadimplência bancária cresceu 2,2% no período, a não bancária subiu 9%”, detalha Rabi.

Terceira maior varejista em faturamento no segmento de Moda e Esporte, segundo ranking de 2013 do Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo e Mercado de Consumo (Ibevar), a Renner viu suas “perdas em créditos, líquidas das recuperações” saltarem 56,6% no terceiro trimestre, em relação ao mesmo período do ano passado. Ainda assim, as provisões são as menores do setor, argumenta Laurence Gomes, diretor de Relações com Investidores da Renner. “A provisão é feita em cima do volume de vendas. E nossas vendas em mesmas lojas (inauguradas há pelo menos um ano) cresceram 7,5% no terceiro trimestre, frente ao mesmo período de 2013, enquanto outros players tiveram decréscimo”, diz o executivo. Outro fator que interfere nas provisões para inadimplência é a base de comparação: “O ano passado foi um dos melhores em termos de baixa inadimplência”, afirma Gomes.

Controladora da Riachuelo, a Guararapes Confecções terminou os três primeiros trimestres do ano com R$ 185,1 milhões em provisões para liquidação de créditos duvidosos. Depois de começarem o ano em queda, os níveis de perdas em operações de empréstimo pessoal e do Cartão Riachuelo voltaram a subir no segundo e terceiro trimestres. No Empréstimo Pessoal Riachuelo, o percentual de perdas passou de 9,4%, em junho, para 10,8%, em setembro. No mesmo período, as perdas relacionadas à inadimplência no cartão que leva o nome da varejista subiram um ponto percentual, para 6,7%, conforme dados das demonstrações contábeis do terceiro trimestre. “A luz amarela acendeu”, resume Rabi, da Serasa Experian.

Mesmo num cenário econômico adverso, a projeção da Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo (SBVC) é de 2% de crescimento para o setor neste ano. “O grande desafio do varejo é manter as vendas aquecidas sem perder a mão na inadimplência”, diz Eduardo Terra, presidente do SBVC. Na avaliação do especialista, o tripé fundamental no qual o varejo se escora — renda, emprego e crédito — ainda não sofreu desgaste expressivo. “Os fundamentos (da economia) não estão ruins, mas a crise de confiança, de expectativa iniciada em junho de 2013 começa a afetar a economia real”, sustenta Terra.

Os efeitos da inadimplência também se fizeram sentir nos resultados dos Cartões Marisa. Quinta colocada no ranking do Ibevar, com faturamento de R$ 3,7 bilhões em 2013, a rede varejista estimou em R$ 171,7 milhões as perdas em operações de crédito relacionadas aos seus cartões para o período de janeiro a setembro de 2014. O montante é 24,7% superior ao projetado para igual período do ano passado.

“As provisões indicam uma expectativa do que vai acontecer no futuro e o impacto na carteira de débitos das companhias”, esclarece Marcelo Alvim, professor de análise de balanços do Ibmec-RJ. A partir de 2007, com a adoção do IFRS (padrão de normas internacionais de contabilidade) no país, as companhias passaram a estabelecer provisões não mais com base no passado, mas de acordo com uma análise mais subjetiva — segundo Alvim — do perfil de crédito da base de clientes.

Economista da Confederação Nacional do Comércio (CNC), Marianne Hanson destaca a incerteza no cenário econômico nacional como um dos fatores responsáveis pela percepção dos empresários a respeito da inadimplência futura. “Existe a possibilidade de um novo ciclo de aperto monetário e uma incerteza de quanto tempo vai durar”, frisa ela. “Houve, também, um aumento do custo do crédito ao longo do ano”. Marianne lista alguns dos fatores que ajudaram a mitigar a subida nos níveis de inadimplência: melhoria no perfil de endividamento (com a expansão de modalidades de financiamento que têm garantia); moderação na concessão de crédito (todos os tipos apresentam desaceleração no ano); e crescimento da renda ainda acima da inflação. “Isso tem feito com que a taxa de inadimplência, de um modo geral, continue baixa”, explica a economista.

Procuradas para comentar suas provisões relacionadas à inadimplência, Marisa e Riachuelo optaram por não se manifestar.

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