De Olho na Política: Brasileiros que o Brasil esqueceu

O número de mortes violentas de índios no país este ano deve superar as 70 registradas em 2014

Por O Dia

Rio - A sociedade brasileira não tem o mínimo interesse pelo que acontece com os índios. Para a maioria, eles são erradamente associados ao passado, só existem nos livros escolares. Não é verdade. O Brasil tem uma população indígena de 900 mil pessoas. São homens, mulheres e crianças que guardam a origem da cultura nacional e vivem em harmonia com a floresta. Agora, por um breve tempo, estiveram sob holofotes por causa dos Jogos Mundiais dos Povos Indígenas que terminaram ontem. Pena. Deveriam ser destaque por motivo bem mais grave: matadores de aluguel e o Congresso conservador ameaçam sua sobrevivência.

Por muitos anos rejeitada, a herança africana no país tem recebido nos últimos tempos maior atenção e respeito — apesar de ainda estar longe do ideal. Já o legado indígena vai no sentido inverso: é cada vez menos lembrado. Mesmo que nossa gastronomia, vestuário, música e vocabulário tenham raízes nesses povos, agimos como se não existissem. Manter a salvo os índios é preservar nossa própria história. Ainda que eles hoje tenham acesso a celular, carros, computadores e outras tecnologias, nosso DNA cultural está vivo no cotidiano dessas comunidades.

Uma parcela da Câmara dos Deputados parece não dar qualquer importância a isso. Tanto que aprovaram a PEC 215, que tira do governo o poder sobre a demarcação das terras indígenas e o transfere para o Legislativo. O texto absurdo, que tramitava há 15 anos, foi acatado pela bancada reacionária, com o objetivo de evitar a criação de novas reservas e até rever as antigas. Com muita razão, o governo argumenta que a PEC vai contra o princípio da separação dos poderes. A proposta simboliza bem o desprezo que a bancada de deputados conservadores tem pelos índios.

Isso acontece justamente quando essas comunidades necessitariam de uma proteção ainda maior por parte do governo. Aumentam as agressões aos índios, especialmente no Mato Grosso do Sul. Este ano, vários homicídios aconteceram ali e tanto indígenas quanto ativistas acusam fazendeiros locais pelos crimes — muitos deles, como se sabe, representados no Congresso. O número de mortes violentas de índios no país deve superar este ano as 70 registradas em 2014. Em resumo: deputados conservadores querem enxotar essas comunidades de suas terras e alguns fazendeiros praticam tiro ao alvo com eles. Enquanto isso, admiramos nos jornais e na TV o “exotismo” dos Jogos Indígenas, e vamos dormir tranquilos como se lá, nas profundezas do Brasil, tudo estivesse sob controle.

POR TRÁS DA TRIBUNA

No início da década de 1980, a Câmara dos Deputados ganhou o seu primeiro parlamentar indígena. Mário Juruna, líder xavante, filiou-se ao PDT do Rio de Janeiro, por sugestão de Darcy Ribeiro. Na esteira da popularidade de Brizola, Juruna conseguiu boa votação e foi parar em Brasília.

Bastaram poucos meses circulando nos gabinetes do governo e do Congresso para que o índio-deputado chegasse à conclusão que muito do que prometiam a ele não era concretizado.

Começou, então, a circular pela capital federal com um enorme gravador pendurado no pescoço. A quem perguntava o motivo de tal adereço, Juruna respondia de pronto: “Homem branco mente muito”. Como se vê, pouco mudou.

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