Leda Nagle: A magia de Regina

No começo, muitos sustos dos vizinhos, que diziam: “Como assim restos? Eca!”. Esperta, ela cozinhou o dia todo

Por O Dia

Rio - Antigamente, na televisão, tinha um programa que eu adorava e que se chamava “Gente que faz”. Era uma proposta positiva, onde só apareciam pessoas que tinham boas ideias. Acho que não durava nem cinco minutos no ar, mas deixava um rastro de felicidade. Me lembrei dele esta semana ao conhecer e entrevistar Regina Tchelly, uma paraibana do bem. Moradora do Morro da Babilônia há 12 anos, esta mulher poderia estar naquele programa. Melhor ainda é que ela exista nesta cidade e faça uma verdadeira revolução na comunidade onde vive. Regina leva em frente um projeto chamado Favela Orgânica, onde ensina famílias do local a cozinhar coisas deliciosas e originais, utilizando todas as partes dos alimentos disponíveis nas feiras livres, tipo risoto de casca de melancia, brigadeiro de casca de banana, e vai por aí.

O sonho de Regina, desde que chegou do Nordeste, era ser uma cozinheira diferente. Cresceu vendo a mãe aproveitar tudo que tinha em casa para alimentar os filhos e, com as cascas, adubar sua hortinha caseira. No Rio, trabalhando como empregada doméstica na mesma casa, por 11 anos, ganhou o apoio da patroa, juntou R$ 140 e começou seu sonho. No começo, muitos sustos dos vizinhos, que diziam: “Como assim restos? Eca!”. Esperta, ela cozinhou o dia todo, convidou as pessoas para degustarem sua comida e provou que era deliciosa. Seis famílias aderiram, e ela começou a inventar. Já criou 40 hortinhas usando velhos isopores, baldes ou bacias, que recolhe das ruas, ensina a adubar a terra com o que não aproveita nos pratos e segue em frente inventando um salpicão aqui, uma torta ali. Ela também já fez parcerias com os feirantes, e a xepa de feiras aduba suas aulas e oficinas. Aliás, ela já voltou a Serraria, onde nasceu, na Paraíba, para ensinar suas receitas.

E foi a Ipatinga, em Minas, a Curitiba e a Pernambuco mostrar sua cozinha e espalhar a ideia das hortinhas. Ano passado, quando o projeto fez um ano, foi à Itália, convidada pelo movimento “Slow food Internacional”, e deu show. Regina encanta pelo sorriso farto, pela simplicidade com que fala da vida e pela desenvoltura com que lida com as questões do dia a dia. Ela acha que as pessoas reclamam muito e fazem pouco. Regina tem certeza que, se a pessoa tiver educação e souber agir, melhora de vida e melhora a vida dos outros. Por isso, defende aulas de gastronomia nas escolas. Garante que a casca da melancia é afrodisíaca e tem cerca de 450 receitas alternativas. E segue nesta direção, fazendo com a vida dela o que faz com a receita do salpicão: se não tem champignon, usa caroço de jaca. Se não tem damasco, usa manga.

E-mail: comcerteza@odia.com.br

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