Claise Maria: Uma nova realidade à mulher

Pesquisa do Ipea, ainda que divulgada erradamente e depois corrigida, evidencia um descompasso entre sociedade e políticas públicas em relação à violência

Por O Dia

Rio - No momento em que o tema da violência contra a mulher ganha destaque na imprensa e na agenda do governo, a pesquisa elaborada pelo Ipea, em março — ainda que tenha sido divulgada erradamente e depois corrigida —, apontando que 26% dos brasileiros concordam com a ideia de que mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas, evidencia um descompasso entre sociedade e políticas públicas.

Pior: mostra existir uma ‘cultura do estupro’ no país. Não basta que o comportamento feminino seja alvo de restrições maiores que o masculino: é tolerável que desvios de conduta sejam punidos, por meio de violência sexual. São preocupantes ainda dois itens: 58,5% acreditam que, se as mulheres soubessem se comportar, haveria menos estupro; e 65%, que mulher que é agredida e continua com o parceiro gosta de apanhar.

Foram consultados quase quatro mil domicílios, em 212 cidades brasileiras. Homens e mulheres foram entrevistados. Elas, inclusive, foram maioria — correspondem a 66% da amostra. Dos dados, emerge uma sociedade patriarcal, que busca controlar o corpo feminino e que culpa a mulher pelas agressões sofridas. Na prática, há a preservação da imagem da família tradicional, organizada em torno da figura do homem.

O pai continua sendo a autoridade a ser respeitada, ainda que isso acarrete prejuízos à mulher. Neste contexto, a violência, física ou subliminar, é frequente e tolerada. Há forte tendência de associar a imagem da mulher à imagem de mãe.

Chama atenção a sociedade culpar a mulher, e não o homem. Até na denúncia, a mulher, que é vítima, sente vergonha de denunciar, pois há na sociedade essa compreensão. É o resultado da desigualdade, do machismo e da opressão. Da pesquisa, nasceu o movimento #NãoMereçoSerEstuprada, da jornalista Nana Queiroz, que ajudou a disseminar o debate.

Não queremos ser uma Índia. País que, segundo a Fundação TrustLaw, é o pior entre os do G20 para a mulher. É verdade que a conquista da Lei Maria da Penha; avanços nos estudos de gênero; lutas históricas pela causa e o acesso aos meios de comunicação e redes sociais têm permitido a denúncia de crimes que colaboram no desfecho. É preciso, porém, que o tema violência contra as mulheres seja revisto, e não revestido, pois está no cotidiano. Para enfrentar o problema, é necessário mais política pública séria de gênero, que esteja definitivamente na agenda pública, e não apenas reduzida a espaços privados.

Claise Maria é deputada estadual pelo PSD e presidenta da Comissão da Criança, do Adolescente e do Idoso

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