Milton Cunha: Sexo e a gente

Sobre desejo... não há parâmetro único. Descubra o seu, porque no final do mês ninguém paga as suas contas

Por O Dia

Rio - Eu gosto de boot cano alto preto, cueca box preta e gravata borboleta, podendo ter dois pequenos punhos brancos e um babador também branco sobre o meio do peito. E você, gosta de quê? No meu caso não pode ter quepe preto, nem correntes, nem couro. Nada mais diferente de um gay que outro gay. Corretíssimo, porque tesão está no plano do desejo, e este é uma pulsão construída a partir da história pessoal, correndo por fora todas as pressões que a propaganda exerce, já que vivemos neste midiático mundo: a grande empresa de lingerie vai lançar a “lingerie gay”, qualificada como de grande sensualidade e criatividade.

Pensei em cuecas retas de renda preta, onde pela transparência seja possível ver o órgão guardado, e imediatamente achei que milhões de mulheres vão ter tesão em ver seu bofe com isto. Mas aí imaginei que no pacote poderia vir uma calcinha fio-dental rosa, de lacinhos, com a frente transformada em um saco. Deve ter gente que tenha tesão nisto, inclusive o grande número de heterossexuais que se vestem de mulher para que a mulher tenha tesão neles. Vale tudo, e no campo da libido é melhor não julgar. Só não pode mexer com crianças e mortos, aí a baixaria direciona para o criminoso, e cadeia neles. De resto, o grande balaio de gatos em que se transformou o sexo, podendo estar na prateleira do couro com chicotes, das depilações pubianas, das lingeries gays, ou nada disso.

Uma estratégia do marketing, que tentaria apreender os grandes fetiches que uniria os gays, talvez com estampas camufladas do Exército ou mesmo tachas e metais. Tudo para ser consumido com bom humor, apenas mais um elemento de diversão neste mundão de Deus, onde o tiroteio de ofertas deve ser sempre enfrentado como libertador, jamais a clausura de uma empresa tentando determinar para todos o que é certo, chique, ou estimulante. A partir deste pensamento, a negação absoluta de um gay, que jamais compraria a lingerie gay, e a partir desta premissa criaria sua própria coleção para ser usada por ele e o namorado. E sendo lançada para gays masculinos, imagina a festa que as lésbicas vão fazer com isso, algumas delas mais másculas que muitos de nós. Incontrolável mundo, enfrentado com deboche e crítica.

Não há uma só voz que dê conta do desejo, não há parâmetro único. Descubra o seu, porque no final do mês ninguém paga as suas contas. Flane pelo grande supermercado da vida pós-moderna, e permita-se descobrir que a lingerie que te dá tesão são aquelas calçolas enormes de renda e cetim que vovó usava: ela sabia das coisas, antes da publicidade, porque intuição é tudo!

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