Luis Pimentel: Padeirinho e a nova aquarela

Jamais conseguiu viver de música, mas para ela viveu. Foi funcionário do Cais do Porto e da Limpeza Pública

Por felipe.martins , felipe.martins

Rio - ‘Numa vasta extensão, onde não há plantação, nem ninguém morando lá (...) E assim a região sofre modificação e fica sendo chamada de a nova aquarela’. Esses versos são de uma canção chamada ‘Favela’, gravada há meio século por Nara Leão e até hoje presente nas melhoras rodas de samba do país.

O autor é um mangueirense a quem homenageio aqui por dois motivos: porque hoje ele faria aniversário e porque a escola de seu coração, para quem criou obras lindas, é a campeã do Carnaval deste ano, com o inesquecível samba a Maria Bethânia. Falo de Osvaldo Vitalino de Oliveira (1927-1987), conhecido no mundo da música como Padeirinho da Mangueira, um compositor dos melhores, quase esquecido.

A aquarela das favelas hoje, seguramente, não é a mesma que Padeirinho ajudou a pintar no século passado. Mas a sua poesia desceu e subiu morros, sempre falando por elas. Ganhou o apelido porque o pai era padeiro (em Mangueira, claro) e começou a compor ainda menino. Desde sempre cantava seus sambas nos botequins do morro e saía na bateria da Estação Primeira. Entrou para a Ala de Compositores da escola em 1947, então com 20 anos de idade, quando apresentou o samba ‘Mangueira desceu para cantar’. Jamais conseguiu viver de música, mas para ela viveu.

Foi funcionário do Cais do Porto e da Limpeza Pública do Rio de Janeiro. Participou do show ‘O samba pede passagem’, no Teatro Opinião no Rio. Em 1974 teve a alegria de gravar ‘A mais querida’ e o samba-enredo ‘O grande presidente’ (ambos de sua autoria), para o selo Marcus Pereira, no LP ‘História das escolas de samba’.

Entre os grandes sucessos de Padeirinho estão, além de ‘Favela’, ‘Situação do Escurinho’ (brincadeira inspirada no grande sucesso de Geraldo Pereira, que teve gravação deliciosa e cheia de ginga pelo paulistano Germano Matias), ‘Linguagem do Morro’ (com Ferreira dos Santos, que foi muito bem regravado por João Nogueira) e ‘Como será o ano 2000?’ (“Será que no ano 2000 as escolas irão desfilar? Será que haverá Carnaval? Será?”), que Cristina Buarque e Carlinhos Vergueiro imortalizaram.

O grande bamba verde e rosa tem músicas suas registradas por muitos outros intérpretes, todos seus admiradores: Paulinho da Viola, Martinho da Vila e Cartola estão entre eles.

E-mail: luispime@gmail.com

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