Polícia circula fora da lei com carros sem vistoria

Todas as 32 viaturas pesquisadas pelo DIA estavam irregulares. Sindicato critica o perigo para policiais e especialista diz que aplicar a lei sem cumprir fragiliza o governo

Por O Dia

Rio - Ao melhor estilo do ditado popular ‘faça o que digo, mas não faça o que faço’, não são apenas os carros da Polícia Militar que circulam irregulares pelas ruas do Rio. Os da Polícia Civil também não poderiam seguir caminho caso fossem parados em blitzes ou se a lei valesse para todos. Dos 32 veículos analisados ontem pela equipe do DIA em cinco delegacias, nenhum possuía licenciamento anual, o que quer dizer que não passaram por vistorias.

No último dia 8, o ‘Informe do DIA’ analisou 12 patrulhas da PM. Todas também foram reprovadas. Lei estadual de 1997 dispensa veículos oficiais do pagamento do IPVA, mas não os isenta de vistorias.

Adquirido em 2008%2C o carro LKV-5177 foi vistoriado somente até o ano de 2011Alexandre Vieira / Agência O Dia

“Se analisarmos a frota normal, levando em consideração que elas são trocadas com frequência, isso não representa um grande risco ao meio ambiente. A grande questão está no aspecto moral. O governo se torna frágil, já que a polícia aplica a lei, mas não cumpre”, analisa o professor de Engenharia de Transporte da Uerj Alexandre Rojas.

Na lista das viaturas paradas em delegacias como a 5ª DP (Mem de Sá), 6ª DP (Cidade Nova), 17ª DP (São Cristóvão), 18ª DP (Praça da Bandeira) e no antigo prédio da Delegacia de Combate às Drogas (Dcod), no Andaraí, mais da metade possui apenas o documento emitido no emplacamento. O restante foi vistoriado em alguns anos posteriores à fabricação, mas depois passaram a rodar com licenças vencidas. Os dados constam no site do Detran. Clique na imagem abaixo para ampliar a tabela:

Perfil de parte da frotaReprodução

Para quem trabalha diariamente com os veículos, o problema vai além da legislação. Em péssimo estado de conservação, principalmente no interior, segundo policiais, alguns carros sequer poderiam ser utilizados. “O policial que está dentro do veículo corre um grande risco permanente. Mas ele não pode reclamar, caso contrário corre o risco de ser transferido e perder uma gratificação”, denuncia o presidente do Sindicato dos Policiais Civis (Sinpol), Fernando Bandeira.

Manutenção precária e desperdício

Denúncias de policiais e do Sinpol dão conta que os os problemas não se resumem aos documentos atrasados das viaturas. Isto porque a manutenção dos veículos também é precária, o que contribui para problemas diários e desperdício de verba pública.

“Cansei de chegar em algumas delegacias e, de cinco carros, quatro estarem parados. Normalmente, pelos meios legais, o conserto burocrático leva muito tempo, atrapalhando os trabalhos. Aí, cada delegado faz o que pode”, contou um policial.

Segundo Fernando Bandeira, o jeito, muitas vezes, é recorrer, de forma gratuita ou privada, aos serviços de um mecânico. “Os delegados acabam ficando numa situação complicada. Atrapalhar as investigações e não ter resultados positivos ou pedir favores a terceiros que não são da polícia? Há casos em que tiram até do bolso para consertar os carros”.

Até janeiro, 420 carros novos

A Polícia Civil não respondeu às indagações do DIA sobre a situação irregular dos veículos. Mas, em nota, informou que a manutenção deles é realizada em oficinas mecânicas escolhidas após pesquisa de preços. Por meio de processo interno, cada delegado apresenta orçamento (de pelo menos três oficinas diferentes). Os serviços são quitados por meio de ordem de pagamento.

Manutenções mais simples, como trocas de pneus, óleo e baterias (compradas por licitação), são realizadas em garagem da instituição. Segundo a Polícia Civil, até janeiro 420 novas viaturas, já com manutenção total, farão parte da frota de 1.800 veículos. Alguns veículos serão realocados.

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