Paródia de hino contra ditadura militar cai na boca de manifestantes

Música de Chico Buarque embala a passeata anti-Dilma

Por O Dia

Rio - ‘Amanhã há de ser outro dia’, diz o refrão da música ‘Apesar de Você’, de Chico Buarque, que virou hino contra a ditadura militar. Mas, em meio a manifestantes que pediam a volta das Forças Armadas ao poder, na orla de Copacabana, a canção foi usada para protestar contra a presidenta Dilma Rousseff.

Cerca de 15 mil fizeram ato na orla. Entre as reivindicações%2C intervenção militar e impeachmentFoto%3A Alessandro Buzas / Agência O Dia

Gonzaguinha e Geraldo Vandré, outros compositores símbolos da luta pela democracia nas décadas de 1960 e 1970, também foram ouvidos. “Dilma, vai embora, que o Brasil não quer você”, dizia trecho de paródia feita sobre ‘Pra Não Dizer Que Não Falei de Flores’, marco da luta contra a ditadura.

Na seleção musical, o Hino Nacional e o da Bandeira foram os mais tocadas. Nas janelas dos prédios, moradores mostraram apoio com bandeiras.

Nas roupas, o amor à pátria era bordado pelo símbolo da Confederação Brasileira de Futebol, em camisas oficiais da seleção. Não faltaram, também, saudações aos policiais militares que fizeram a segurança do ato.

FOTOGALERIA: Protesto contra Dilma em Copacabana

Teresa Silva bradou contra a presidenta. “Sou contra o PT e a Dilma. Temos que mudar.” Ao ser informada que, em caso de impeachment, o vice -presidente Michel Temer assumiria, ela confessou não saber como funciona a linha de sucessão. “Vamos fazer vários impeachments até que assuma alguém de direita”, disse
Moradores da Ilha do Governador, Édson e Alessandra Costa levaram os filhos: “Consciência política se aprende cedo. Queremos uma reforma política com intervenção militar. Precisamos botar ordem no ‘bordel’ que se tornou o Palácio do Planalto”, disse Édson.

Os projetos sociais do governo também foram alvo de críticas. “O Bolsa Família desestimula as pessoas a lutar pelo próprio pão!”, disse o médico Felipe Asdrúbal.

Por volta das 11h, um manifestante foi agredido após abrir uma bandeira vermelha. O mecânico Rogério Martins foi derrubado de sua bicicleta e hostilizado. A PM o tirou do meio do grupo.

A maioria dos presentes, no entanto, caminhou em paz. Gustavo Comes preferiu esperar a concentração enquanto tomava um chope tirado na hora no bar Príncipe de Mônaco, na altura do Posto 5. “Estou aqui para gritar contra o vandalismo social que vem sendo feito”, garantiu ele, morador da Barra da Tijuca.

Grifes e cãezinhos na passeata

Em meio às variadas causas, o estilo dos manifestantes chamava a atenção de quem passava pela Avenida Atlântica. As camisas oficiais da Seleção Brasileira eram o item mais usado, seguido dos óculos escuros, estilo ‘aviador’, de grifes internacionais, que protegiam os ativistas do sol.

Bolsas de marcas famosas também distinguiam o público dos últimos grandes protestos que a Cidade Maravilhosa sediou. “Sou aposentada e não me conformo com o tratamento que a nossa classe recebe do governo. Preciso continuar na ativa para continuar vivendo no Leblon”, disse a professora Maria Mendes, com seu óculos Prada, ao lado da amiga Shirley Mendes, que usava modelo Marc Jacobs.

Alguns internautas favoráveis à presidenta Dilma Rousseff chegaram a se referir à manifestação, de forma irônica, como ‘A Revolta do Ray-Ban’.

Os animais de estimação também podiam ser vistos em grande número. Em bolsas ou paramentados com as cores da bandeira nacional, eles acompanharam seus donos.

Um exemplo foi o cão da raça maltês no colo da moradora de Copacabana Teresa Silva. “Ela também adora o Aécio Neves”, disse ela, brincando em relação ao animal.

A aposentada Suzane Greco também levou seu cão, um poodle, ao evento. Por causado do calor no asfalto, o cão foi no colo.

Famosos marcam presença

Celebridades deram sua contribuição nos atos contra a presidenta Dilma Rousseff. A atriz Regina Duarte, que, em 2002, fez campanha para José Serra (PSDB) e disse no programa eleitoral dele que tinha medo da vitória do PT, foi uma das que aderiram ao movimento. Logo pela manhã, ela publicou na sua rede social uma foto com a frase ‘Vem pra rua’.

No Rio, o ex-‘Casseta e Planeta’ Marcelo Madureira discursou num carro de som, em Copacabana, e fez críticas ao governo petista. “Isso não vai virar a Venezuela”, disse ele, que segurava uma blusa onde estava escrito ‘Operação Fora Dilma. Eu apoio’. Com o rosto pintado de verde e amarelo e blusa da seleção brasileira, a modelo Ellen Jabour se misturou à multidão na orla. Os atores Márcio Garcia, Solange Couto — que segurava um cartaz com a frase ‘Não é um por um partido. É por um país’ —, Christine Fernandes e Malvino Salvador também marcaram presença nos protestos.

Sobras da Copa do Mundo

Os ambulantes aproveitaram a manifestação na orla de Copacabana para vender sobras da Copa do Mundo 2014. Bandeiras do Brasil, buzinas e outros artigos verde e amarelos foram a sensação em ato contra o governo de Dilma Rousseff.

“Ninguém esperava todo esse movimento, não”, disse o alagoano Francisco José, 25 anos. “A gente não esperava vender bandeira desde que o Brasil perdeu a Copa. Tinha bandeira empacada. Hoje, vendi tudo”, comemorou o vendedor, cujas flâmulas saíram por R$ 10, cada uma.

Perto do fim do ato, ele só tinha cangas com as cores do Brasil, que custavam R$ 25 (lisa) ou R$ 30 (com fundo estampado).

Fábio Casemiro chegou tarde, por volta das 11h, e, por isso, acabou não vendendo tanto. “O governo só aumenta tudo, né? Ninguém está rico e nem nada. Eu sou a favor da saída da presidenta Dilma. O problema é que, se entrar outro, vai roubar do mesmo jeito”, comentou sobre a manifestação.

Terrorismo se espalha nas redes sociais

O terrorismo virtual tomou conta das redes sociais nos dias que antecederam os protestos. “Vinte mil guerrilheiros armados deixam a Amazônia e invadem o Sudeste”, foi um dos alarmes falsos que proliferaram no WhatsApp ao longo da semana passada.

Com sotaque do sul, uma voz feminina faz o alerta do deslocamento dos grupos armados. Ela diz que as informações são de uma amiga que é sobrinha de tenente do Exército. “Ele me disse para avisar para as pessoas se prepararem e abasteçam a casa com comida, combustível, tudo que for preciso”, diz. “Descobriram na Floresta Amazônica um grupo de mais de 20 mil guerrilheiros com armas. Se lá tem 20 mil, imagina no resto do país. Eles estão prevendo uma guerra civil”, termina.

O estudante Marcos Filgueiras, de 28 anos, estava com amigos quando recebeu a mensagem, no sábado. “Começamos a gargalhar na hora. Mas tem gente que cai nessa. Acho muita má-fé essa tentativa de manipulação”, disse.

Ao longo do dia, o terrorismo proliferou no Twitter e no Facebook. Um dos “avisos” dizia que o governo pode confiscar o dinheiro da poupança, como na época do ex-presidente Collor.

Já em outra mensagem, um suposto exército do Movimento dos Sem Terra (MST), com apoio da Venezuela, promoveria um ataque liderado pelo ex-presidente Lula.

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