Wilson Diniz: Desilusão no Planalto

Dilma, tome cuidado ao olhar o futuro do PT! As pesquisas sinalizam que legado petista já foi esquecido

Por O Dia

Rio - A presidenta Dilma Rousseff e a cúpula do PT bem poderiam cantarolar, como trilha sonora da ‘Pátria Educadora’, a canção ‘Dança da solidão’, de Paulinho da Viola, depois que nomearam Michel Temer como articulador político do governo no Congresso. O Príncipe do Samba poetiza: “Meu pai sempre me dizia/ Meu filho, tome cuidado/ Quando eu penso no futuro/ Não esqueço meu passado.../ Desilusão, desilusão/ Danço eu, dança você/ Na dança da solidão.”

Paulinho não resgata saudade nem nostalgia, mas o presente. A presidenta e o PT deveriam se inspirar no passado — quando o partido pregava a ética e mobilizava multidões contra a ditadura, e jovens se encantavam com o projeto de país na primeira eleição presidencial de Lula, contra Fernando Collor.

Dilma, tome cuidado ao olhar o futuro do PT! As pesquisas sinalizam que aqueles jovens já esqueceram o legado petista. Em junho de 2013, surgiram os primeiros movimentos de desencanto: Um milhão e meio de manifestantes em 12 dias.

Hoje, o governo petista agoniza, loteado de corrupção, começando com o Mensalão do Lula, indo até a Lava Jato da Dilma. E a presidenta perde perspectivas de melhora graças à crise econômica. “Desilusão, desilusão...” O PT se desintegra entre Dilmistas e Lulistas. Pesquisas indicam que PT está em queda livre, perdendo simpatizantes.

Enxergam-se semelhanças entre o que move os descontentes de hoje e o filme ‘O ovo da Serpente’, de Ingmar Bergman (1977), que retratou a gênese de uma sociedade dividida que desembocaria no nazismo. O Brasil também está dividido desde a eleição. Os jovens estão migrando para as siglas de centro-direita, como o PSDB, PV e PSB, desiludidos com o Bolsa Família e afins — então base de sustentação da economia, em detrimento da política de emprego. E assistem ao modelo neoliberal de ajustes fiscais comandado por Joaquim Levy, vindo do berço tucano, para reequilibrar as contas.

Para agravar a crise, o governo perde o controle institucional do Congresso e vira refém do PMDB, através de Calheiros e Cunha, com Michel Temer na poderosa articulação. “Dança Dilma, dança o PT/ Na dança da solidão.”

Wilson Diniz é economista e analista político

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