Indiretas contra o comportamento machista tomam conta da internet

Milhares de pessoas têm usado a hashtag “MeuAmigoSecreto” para relatar atitudes abusivas e contraditórias

Por O Dia

Rio - A velha máxima “faça o que eu digo, mas não o que eu faço” está sob ataque na internet. Para denunciar a hipocrisia de tal discurso, há dois dias as redes sociais têm sido inundadas por uma corrente contra a opressão, a incoerência e o preconceito. Com gancho na tradicional brincadeira de fim de ano, milhares de pessoas têm usado a hashtag “MeuAmigoSecreto” para relatar, sem citar nomes, atitudes abusivas e contraditórias.

“Meu amigo secreto disse que me agrediu porque gosta muito de mim e, por isso, o faço perder a cabeça. Ele romantizou a violência. Quando pensei em terminar, ele ameaçou publicar fotos íntimas minhas.” O trecho é parte do depoimento da estudante de Relações Internacionais da UFF Raquel Prado, 20. De acordo com ela, a inspiração e coragem para escrever sobre o ex-namorado vieram da massificação da campanha.

Mesmo com medo de retaliações, Raquel contou que se sentiu aliviada ao expor os abusos e, hoje, incentiva outras mulheres a fazer o mesmo. “Acho que sempre vivi um relacionamento abusivo e não sabia”, afirmou.

Novo protesto contra a pauta conservadora na Câmara dos Deputados e contra Eduardo Cunha reuniu dezenas em frente à Alerj%2C na Praça 15Ernesto Carriço / Agência O Dia

O caso de Raquel não foi o único. Principalmente entre as mulheres, os discursos contra atitudes machistas se multiplicaram. Para centralizar e dar voz aos relatos, Carolina Coelho, Dandara Oliveira, Maria Leão e Jéssica Sol, estudantes da UFRJ, criaram a página ‘Meu Amigo Secreto É’, no Facebook. Em um dia, o endereço bateu quase 10 mil seguidores, e o movimento ganhou fôlego.

“A campanha começou como uma coisa fragmentada, a partir do pontapé no Twitter @NaoKhalo (perfil de coletivo feminista). Eram tantos desabafos que todo mundo parou de trabalhar e estudar por uns bons minutos”, contou Jéssica, 23.

Para ela e as amigas, a página serviu para tornar menos pessoais os relatos e proteger a identidade das pessoas. “Se falassem diretamente, poderiam receber ameaças”, disse Maria, 23.“Esta campanha vem para mostrar que as mulheres não estão sozinhas, e que essas situações não acontecem só com uma ou outra”, considerou Dandara. 

Outras mulheres sustentam que a campanha funciona como rede de acolhimento, que encoraja as vítimas a fazer as denúncias, mesmo que os agressores não sejam identificados. “O que a gente não consegue desabafar pessoalmente, fica engasgado. A internet, com essas redes de acolhimento, com essas campanhas, abre o caminho”, disse a estudante de História da Uerj Marina Laiun. 

Especialistas apoiam o movimento

“As mulheres se sentem pressionadas e culpadas quando sofrem agressão”, disse Arlanza Rebello, coordenadora do Núcleo de Defesa dos Direitos da Mulher (Nupem). Ela explicou que é importante que as pessoas consigam fazer registros das páginas antes mesmo delas serem apagadas. “É importante criminalizar essas ações relatadas”, completou ela. 

A psicanalista Claudia Gindre afirmou que a rede social favorece muito porque tem a garantia do anonimato e, no geral, acaba criando uma cumplicidade entre os que compartilham o relato. Ela afirmou que a hashtag também está sendo usada para falar sobre outras questões além do abuso, como certas verdades que as pessoas não conseguem falar pessoalmente para não causar desconforto entre o meio social.

“É um movimento social cibernético”, declarou o sociólogo Paulo Baía. Segundo ele, há uma estratégia política por trás das hastags para constranger os agressores. “Esse movimento é criativo”, disse.

Colaboraram as estagiárias Carolina Moura e Clara Vieira

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