Eduardo Alves: Dê um olé na crise... vá ao teatro!

O que se precisa hoje é de mais democracia, não de concentração de poder e muito menos de um golpe

Por O Dia

Rio - O Brasil passa por sua primeira e maior crise política no século 21. Apesar de ser possível derrubar um presidente, como ocorreu com Collor, é necessário ter um ‘crime de responsabilidade’ para tal fato. E a elite brasileira investe seu poder para empurrar uma derrubada sem razão real e com muito efeito moral. Aproveitando-se do controle de grande fatia do Estado, principalmente do Judiciário e da mão visível do mercado, com destaque óptico para os meios de comunicação, segue com jogadas ‘fora da ordem’.

Acima do Executivo, do Legislativo e do Judiciário, há a Constituição. Não cabe, a nenhum desses ‘poderes’, se julgar a própria Constituição, e, sim, fazer valer a existente. Trocando em miúdos, sobre a cabeça temos mais que o avião, há a Constituição. Mas a elite no Brasil não se conforma que o melhor presidente, de duas gestões, tenha sido um nordestino torneiro mecânico e depois dele uma mulher. Mas foram, ele e ela, os mais votados, duas vezes, para assumir a Presidência.

Assim, a elite segue com jogadas que vão além da tão repetida, em letras e sons atuais, judicialização da política. A péssima obra em curso está mais para uma politização do Judiciário. Grande risco. Multidão de denúncias, com ou sem fundamento, em um mar de disputa para o Judiciário nadar. E aquela velha opinião de que prisão traz solução. Como assim? Do Judiciário virá a confirmação de um impeachment sem crime ou de que sem crime não há impeachment? Muito poder. O que se precisa hoje é de mais democracia, não de concentração de poder e muito menos de um golpe em pleno século 21.

Nesse quadro, encha o pulmão de arte, dê um olé na crise e vá ao teatro. Marcus Faustini, que, vindo da periferia, chegou ao centro, nos estimula com sua peça ‘Guia Afetivo da Periferia’. Antes um livro, que circulou nas mãos dele pelas ruas do Rio. Agora está no Teatro Serrador animando inspirações com narrativas emocionantes belissimamente interpretadas por João Pedro Zappa. Tudo contemporâneo: figurino, estética, imagens, vídeos, plateia e sons. Essa arte traz um suspiro animador para a alma e reforça o espírito humano para mais protagonismo em um momento que o passado atormenta, pois nada mais anacrônico que um golpe. Permita-se à arte: vá ao teatro!

Eduardo Alves é sociólogo e diretor do Observatório de Favelas

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