Nelson Vasconcelos: Valeu, seu motorista

É a arte de ser brasileiro, que apanha pra burro e, mesmo assim, não desiste nunca. Mas ainda acredito que, nos pequenos lances do dia a dia, ainda podemos ver salvação

Por O Dia

Rio - Tá puxado. A gente não consegue passar uma semana tranquilo, sem pensar que o mundo está acabando. É a arte de ser brasileiro, que apanha pra burro e, mesmo assim, não desiste nunca. Mas ainda acredito que, nos pequenos lances do dia a dia, ainda podemos ver salvação.

Anteontem, por exemplo, meu amigo Alexandre Brandão publicou no Facebook um relato que merece ser divulgado. Diz ele que estava num ônibus da linha 409 e se surpreendeu quando, ao embarcar, o motorista desejou um sonoro bom-dia a todos os passageiros. Vamos combinar que não é sempre que isso acontece.

O melhor veio logo em seguida, como conta o Alexandre: “Dois pontos depois, uns meninos entram pela porta traseira. O motorista se levanta, fala com tamanha educação com os garotos (‘Olha, se vocês ficarem aí, eu pago as passagens. Peço que vocês façam a gentileza de descer, caso contrário terei de permanecer parado aqui até que apareça uma viatura’) que eles... descem.

Puxa, que simples! Parabéns ao motorista do ônibus A71504, que nos leva (para a Lapa) por volta das 8h30. Ao descer do ônibus, consegui dar os parabéns ao motorista, mas não perguntei seu nome (sou escritor tímido, não sou jornalista)”.

Gentileza é atitude tão rara que o motorista merece medalhinha por fazer apenas o que seria o normal da convivência urbana. Tomara que a moda pegue.

E aí vamos pro extremo oposto. Ainda falando em ônibus, tenho visto alguns gênios da raça, moradores da Zona Sul, querendo a extinção da linha 474, que faz o trajeto Jacaré-Copacabana. É nesse bonde que se concentra a galera que, além de muita baderna, faz uns ganhos ilícitos e usa drogas durante a viagem.

Minha questão é: será que, com o fim do 474, essa turma que toca o terror vai deixar de ir à praia? Será que, mudando de linha, eles subitamente vão ficar comportadinhos, penteados e cordatos, compenetrados em sua leitura? Sabe aquela conversa de tirar o sofá da sala? Pois é isso.

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Pra não dizer que não falei de livros, a dica da semana é ‘O livro das conspirações’, de Edson Aran. Ele coletou dezenas de histórias loucas que o povo inventa e sai espalhando mundo afora — até que elas se tornem verdades intocáveis, porque acreditar nelas é mais confortável. É por isso que garantimos que Elvis Presley e Michael Jackson não morreram, que Lady Gaga faz parte de uma seita secreta, que marcianos já invadiram o mundo, etc, etc.

A humanidade é muito criativa e vive contando historinhas assim há milhares de anos. É uma boa maneira, aliás, de suportar o difícil fato de que a realidade nem sempre (ou quase nunca) tem a ver com o que a gente deseja. Fica a dica. É um livro divertido, intrigante e cheio de verdades inconvenientes.

Nelson Vasconcelos é jornalista

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