Fernando Scarpa: ‘Estado de afetamento’

Você virou soldado na sustentabilidade do capitalismo financeiro improdutivo que produz pobreza

Por O Dia

Rio - A política e a economia castigam a existência, a corrupção se alastrou país afora. Não importa se por culpa de qual partido, as delações premiadas dão pistas significativas, denunciando o envolvimento dos poderes na farra do dinheiro roubado. Todos foram financiados por empreiteiras via caixa dois, mas negam na hora de fechar o negócio; dá nervoso, vontade louca de ir ao toalete, o intestino fica aflito, e a privacidade viabiliza o acordo.

Em caso de epidemia, tem vacinação. Nesse caso, a doença é de outra espécie: o vírus não se abate fácil, é resistente. A solução para a retomada da saúde da ética e da moral nacional deveria ocorrer por meio da consciência do dano causado. O roubo contínuo esgota a nação e dá cadeia: “Nosso crime não compensa”, dizia Cazuza, embora a turma custe a acreditar.

É no meio da rua, no metrô, nas empresas, no corpo tenso, no desemprego, no desespero da insônia e das noites maldormidas das contas atrasadas que a realidade do bolso vazio dói. A pobreza e a insegurança com a sobrevivência batem à porta. Não na dos ladrões, a preocupação deles é outra, eles sempre dão aquele jeitinho, têm reservas. Nós, ao contrário, não temos e nem sabemos o que é easy money, a grana vem do batente.

Ganhar a vida na honestidade não é fácil, a grana é curta, o empréstimo vira saída, falta numerário, e vem o endividamento. Caiu no especial? Sacando no vermelho? Ferrou, fez sociedade com as instituições financeiras? Elas vão ganhar no seu maço de cigarro, no chope e em tudo o que comprar. Você virou soldado na sustentabilidade do capitalismo financeiro improdutivo que produz pobreza. Abduzido, negociou a vida a juros fantásticos, o banco comprou sua existência, e sua alma vai passar a fazer parte do patrimônio dele ou do cartão de crédito.
É difícil sair dessa.

O homem do século passado vivia ocupado da culpa relacionada à busca do prazer, do orgasmo reprimido, do gozo escondido. Nós, crias deste século, somos os endividados, nosso tormento é da ordem do capital, do desejo atrelado ao consumo que empobrece mais ainda a existência já falida, condenada a trabalhar, pagar, adoecer, deprimir e morrer.

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