Luis Pimentel: Pior não fica

Como a esperança é a última que morre não vamos jogar a toalha

Por O Dia

Como a esperança é a última que morre não vamos jogar a toalhaDivulgação

Rio - Foi um ano de doer. Doeu no bolso com a economia perdendo o rumo, trabalhadores perdendo empregos, pais e mães de família perdendo a paciência, esperançosos perdendo tempo nas filas do seguro, dos hospitais e das escolas públicas na luta por uma vaga — especialmente pelo êxodo daqueles que tiveram que esquecer o sonho do ensino particular, uma vez que mensalidades ficaram proibitivas. Foi um ano de muitas perdas. Muitos perderam juízo. Tantos perderam a vergonha.

Doeu ver o Rio Doce, irmão dos mineiros e dos capixabas, paixão de todos os brasileiros, cantado em verso e prosa por tantos poetas e cantadores, agonizando na lama da ganância e da irresponsabilidade. Jamais pensei em viver para ver um rio morrer de sede; e não no sentido poético nem prosaico nem figurado.

Doeu ver o mundo tremer de medo diante da carnificina explosiva que alucinados promoveram na França (só ali, duas vezes no mesmo ano), ensaiaram na Bélgica, ameaçaram em outros países. O medo se espalhou com a força do pânico, as garras do terror, o susto de horror absoluto (até porque, o horror nunca é relativo).

Para nós, deste Rio de Janeiro que viu tanto necessitado chorando na fila dos hospitais públicos, cardiopatas morrerem em frente a instituto de cardiologia, padecimentos à espera da consulta, do exame, da cirurgia, da hemodiálise, da palavra de carinho ou pelo menos de respeito, foi mais um ano de angústia, temores e balas perdidas achando inocentes. Inferno nas linhas Vermelha e Amarela, com pais desesperados correndo a esmo com bebês no colo, protegendo-se com eles atrás de carros, no chão, nas valas. Foram tantas noites de cães danados, uivando entre tiroteios, esfaqueamentos insanos, arrastões nas praias, nos bares, nas ruas, até dentro da Cobal.

Foi o ano em que a Universidade do Estado do Rio de Janeiro pediu para sair, que políticos estaduais e municipais jogaram para a torcida (afinal, véspera de ano eleitoral) e os times da cidade não jogaram nada. No plano nacional, mais um ano de pavões e exibicionistas ocuparem páginas na mídia posando de salvadores da pátria.

De qualquer maneira, meus amigos, como a esperança é a última que morre (infelizmente, os esperançosos quase sempre morrem antes), não vamos jogar a toalha. O momento é de pensar que as coisas podem melhorar, que o vizinho que está no desvio vai arrumar um emprego (se pudermos ajudá-lo na empreitada, melhor ainda) e que a fome que volta a ameaçar os nossos irmãos não vai ganhar a guerra. Pelo menos, enquanto pudermos combatê-la.

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