Distância entre 1ª e 6ª colocadas do Grupo Especial está cada vez menor

Ano em que Mangueira voltou a ameaçar a hegemonia da Portela foi o mais acirrado da Era Sambódromo

Por O Dia

Rio - Não é de hoje que campeonatos no Sambódromo são decididos por um décimo. A novidade é que a distância entre a primeira e a última escola está cada vez menor. Levantamento do DIA tabulou todas as notas da Era Sambódromo e constatou que a diferença de seis décimos da Mangueira, a ‘Estação Primeira’ de 2016, para a Imperatriz, sexta colocada, é a mais curta desde 1984.

Especialistas em Carnaval atestam: este foi o melhor espetáculo no Sambódromo em décadas. “Por ironia, no ano em que tanto se falou da crise que afetaria as escolas, elas apresentaram o melhor desfile do século”, crava o sociólogo Bruno Filippo. “Uma gestão de qualidade reflete um desfile magnífico, e um resultado tão apertado, decidido no último quesito, mostra a qualidade dos enredos e a plasticidade do desfile”, emenda Fernando Araujo, assessor cultural da Liesa. “Tivemos um Carnaval da malandragem, no melhor sentido”, completa Luiz Antonio Simas, professor e colunista do DIA.

Verde e rosa apostou em Maria Bethânia para voltar a ganhar o carnaval cariocaCacau Fernandes/Agência O Dia

O ‘nivelamento por cima’ cria situações curiosas. Para comparar os resultados, calculou-se o percentual de aproveitamento com base no máximo possível — hoje, 270 pontos; em 1990, por exemplo, eram 570. Rebaixada para a Série A de 2017, a Estácio de Sá, 12ª colocada, teve 265 pontos, ou 98,15% dos possíveis, desempenho que faria dela vice-campeã em 1994, quando a Imperatriz levou o título com ‘Catarina de Médicis na corte dos tupinambôs e tabajeres’.
Em pontos percentuais, os seis décimos entre a campeã e a sexta colocada deste ano viram 0,22, índice bem menor, por exemplo, que os 3,67 em 2001 — ano da ‘cachaça’ da Imperatriz — e os 6,09 de 1986, quando a Mangueira cantou Dorival Caymmi.

Ao contrário de Laíla, que reclamou do resultado e lançou suspeitas contra a Unidos da Tijuca — como O DIA mostrou sexta-feira —, os especialistas ouvidos pela reportagem consideram o escore de 2016 justo. “As seis primeiras foram as apontadas pela maioria como as que desfilaram melhor”, opina Simas. “Concordo. Mas, se no lugar da Mangueira, a Portela ou o Salgueiro conquistassem o título, também teria sido justíssimo”, pondera Filippo. Os dois afirmam que o nivelamento por cima tem mais a ver com a evolução das escolas que com possível benevolência dos jurados.

INFOGRÁFICO: Evolução da avaliação das escolas por colocação

A forma de se calcular o campeão, aliás, muda em média a cada três anos. Desde 2012 se descarta a menor nota por quesito; na década passada (de 2002 a 2009), toda nota valia, e cada décimo perdido era fatal; já inventaram pesos diferentes, como em 1990; e havia, nos anos 80, bonificação para itens como dispersão e cronometragem. Fora a ‘dança do Conjunto’, incompreensível quesito que já saiu duas vezes.

Simas e Filippo divergem sobre o modelo atual, de descarte. “É difícil encontrar um julgamento que não seja, em alguma medida, capaz de produzir distorções. Essa fórmula me parece a mais equilibrada, que evita que um jurado ‘derrube’ uma escola”, argumenta Simas. “Não gosto do descarte. Isso premia o erro. Todas as notas deveriam ser computadas”, rebate Filippo. Cabe às agremiações decidir a equação, esclarece Fernando. “A fórmula atual foi fechada em plenário, conforme as anteriores. As escolas escolhem a melhor maneira de julgamento e, conforme o desempenho do júri, há, posterior ao desfile, uma discussão.”

Alegorias e fantasias da Portela tiveram a marca do carnavalesco Paulo BarrosAlexandre Brum e João Laet / Agência O Dia

1984, O ANO DA POLÊMICA

A busca pela perfeição também esquentou rivalidade histórica entre duas instituições do samba, Mangueira e Portela. Com a ode a Maria Bethânia, a Verde e Rosa está mais perto da Águia de Madureira. Mas quantos títulos cada uma tem? Qual o ‘placar’? 21 a 19? 20 a 18? O somatório é ponto polêmico, ‘culpa’ de 1984, inauguração do Sambódromo.

Bruno Filippo lembra que até 1983 os desfiles aconteciam no domingo, não importando se terminassem quase 24 horas depois. “‘Sambódromo não é para um dia só’, disse Brizola à época”, relata. “Então se criou estrutura inédita, com três campeonatos: o de domingo, o de segunda e o do Sábado das Campeãs. Cada dia teria um corpo de jurado diferente”, detalha.

Todos sabem que a Portela ganhou no Domingo, e a Mangueira, na Segunda, e as duas disputaram o ‘Supercampeonato’ com Mocidade, Império, Beija-Flor, Caprichosos, Unidos do Cabuçu e Acadêmicos de Santa Cruz — estas duas, vindas do Grupo 1B. Curiosamente, não se julgaram os quesitos Alegorias e Adereços, Enredo e Fantasias, restando às escolas sobressair no ‘chão’. E aí a Mangueira levou a melhor. Mas, para a Liesa, o ‘Supercampeonato’ não conta. “É um para a Portela, e um para a Mangueira”, esclarece Fernando Araujo. Filippo discorda. “Foi outra disputa, com outros jurados. A Mangueira tem 19 títulos”, atesta. Simas faz coro. “Vejo como um título da Mangueira e sei de portelenses que também não sentem o gostinho do caneco em 1984. Pelo critério que considera a Portela campeã, a Mangueira poderia contar dois títulos.” Placar final: 21 a 18. Ou até 2017...