Morar perto é critério para trabalhar na Zona Portuária

Opção é de comerciantes da região que reclamam dos constantes engarrafamentos

Por O Dia

Rio - Os longos engarrafamentos que se tornaram rotina na Cidade do Rio, principalmente no Centro, estão levando comerciantes da Zona Portuária a optarem por contratar apenas pessoas que moram mais próximas do trabalho. Eles reclamam que há funcionários levando até duas horas e meia para chegar ao emprego, devido a falta de mobilidade. A iniciativa é consenso entre 30 lojistas e empresários da região que, em um encontro esta semana para discutir melhorias na área, afirmaram dar preferência em captar mão de obra que more em bairros vizinhos.

A vendedora Eliane Ferreira mora em Campo Grande%2C bairro da Zona Oeste%2Ce leva duas horas e meia para chegar ao trabalho desde que as obras no Centro começaramJoão Laet / Agência O Dia

“Quando recebo um currículo de alguém que mora longe, já não leio mais”, disse Daniela Beier, a proprietária da loja Multicoisas, na Rua Dom Gerardo. Dona de uma segunda unidade da marca na Rua do Carmo, no Centro, a empresária diz que a maioria dos seus 16 funcionários mora em bairros da Zona Norte e na Baixada Fluminense e sofre para chegar na hora certa.

“Eles já chegam exaustos para trabalhar, já que muitos levam mais de duas horas até aqui. Por isso, decidi que um dos critérios de contratação agora é morar perto”, argumenta Daniela, que está com uma vaga de operador de caixa e uma de vendedor abertas. “Se não tiverem capacitação técnica, vamos oferecer treinamento”, acrescenta a empresária.

OPÇÃO LEGAL

Advogado trabalhista da Renault Advogados Associados, Luiz Antônio Alves Gomes não vê como discriminatória a opção de alguns empresários em procurarem contratar sempre empregados que morem em locais próximos ao posto de trabalho. “Não há ilegalidade mas, sim, a busca por trabalhadores mais pontuais e que tenham melhor qualidade de vida em razão do menor tempo de deslocamento”, avalia.

O especialista acrescenta que a atitude pode até aumentar a produtividade da empresa e ainda ser usada como critério de responsabilidade social. “Afinal, melhora também o nível de renda no entorno de suas unidades”, argumenta Gomes.

Ronnie Arosa Carril, diretor do Pompeu Rio Hotel, na Rua Camerino, diz que 80% de seus empregados moram longe. Para amenizar o sofrimento dos trabalhadores, o estabelecimento adotou horários alternativos para fugir dos engarrafamentos.

“Apenas cinco dos meus 25 funcionários moram perto. Os demais residem em São Gonçalo e municípios da Baixada. Locais distantes, que eles levam em média duas horas para chegar, mesmo sem muito trânsito, já que a maioria entra às 6h ou às 15h, para evitar a hora do rush”, explica.

Pior trânsito da história da Cidade do Rio

O secretário municipal de Transportes, Carlos Roberto Osório, afirmou ontem que a Cidade do Rio vive hoje o pior trânsito da sua história. Durante apresentação do panorama do mercado imobiliário pelo Sindicato da Habitação (Secovi), ele explicou que isso se deve ao crescimento da frota de veículos particulares e a um momento de pico nas intervenções de infraestrutura por parte da prefeitura.

Segundo o secretário, na semana anterior ao Carnaval havia 109 frentes de obras no município. Hoje, são cerca de 100. “Chegamos no auge. A partir de agora vai melhorar, pois teremos uma aceleração na conclusão das obras. Entre maio e junho, por exemplo, vamos entregar o BRT Transcarioca, que liga à Barra da Tijuca ao Aeroporto Internacional”, garantiu. Ainda de acordo com Carlos Osório, o trânsito no Centro do Rio deve melhorar a partir do segundo semestre com a conclusão das obras de acesso ao binário, na Região do Porto.

Painel de vagas nas lojas para moradores da região

Comerciantes querem criar murais de banco de empregos nos estabelecimentos da região da Zona Portuária e adjacências para facilitar a contratação de moradores locais. Fernando Portella, diretor do Instituto Cultural Cidade Viva, ONG que promoveu o encontro entre os lojistas, conta que alguns empresários sugeriram também a criação de um painel na internet para divulgar as oportunidades de emprego preferencialmente para pessoas da região. “Certamente há trabalhadores que moram na região e trabalham longe. Seria uma boa chance essas pessoas passarem a trabalhar perto de casa, unindo o útil ao agradável”, relata Portella.

Vendedora da loja Multicoisas, no Centro, Eliane Ferreira, de 42 anos, mora em Campo Grande e leva duas horas e meia para chegar ao trabalho depois que as obras no Centro começaram. “Costumava acordar às 6h45, e agora tenho que acordar as seis para chegar no horário. No percurso, fico parada desde antes da rodoviária até o Passeio. Se eu trocasse pelo metrô, levaria o mesmo tempo”, diz a funcionária. Também vendedor, Brenno Lisboa, 23, mora em Vicente de Carvalho. Ele demora cerca de uma hora no trajeto até o trabalho: “Venho de ônibus e depois pego o metrô. Para ir embora tem dia que levo uma hora só para chegar na rodoviária.”

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