Prefeitura indeniza donos de imóveis na Vila Autódromo em até R$ 2,3 milhões

Os altos valores causaram espanto entre os moradores do local

Por O Dia

Rio - A Prefeitura do Rio deu início a mais um capítulo para retirada total da comunidade Vila Autódromo, na Barra da Tijuca. Após o reassentamento de 342 famílias em um conjunto habitacional há sete meses, o município liberou, nos últimos 10 dias, R$ 12 milhões para desapropriações de nove imóveis. Uma das casas obteve indenização de R$ 2,3 milhões. Os altos valores causaram espanto entre os moradores da Vila Autódromo, que acusam a prefeitura de favorecer um grupo de proprietários.

O Núcleo de Terras e Habitações da Defensoria Pública do Rio, que presta assistência aos moradores, criticou o custo das desapropriações, alegando falta de transparência no processo. No trecho sem asfalto da Avenida Autódromo 58, uma casa de dois andares com piscina integra o núcleo de “classe média” da comunidade. Neste imóvel, o município pagou R$ 2 milhões pelo terreno.

Uma das casas da Vila Autódromo que receberam indenização milionária%3A o valor pago pela prefeitura por este imóvel foi de R%24 2 milhõesAndré Luiz Mello / Agência O Dia

De acordo com o presidente da associação dos moradores da Vila Autódromo, Altair Guimarães, os proprietários que receberam a bolada milionária do município possuem um poder aquisitivo mais alto em relação aos vizinhos. Mas há 40 anos, quando a comunidade foi erguida, todos os terrenos foram conquistados da mesma forma.

“Todos aqui se apropriaram dos espaços para construir as casas e depois foram legalizando. A prefeitura está tão desesperada para acabar com a comunidade que está pagando qualquer preço”, declarou Altair. Titular do Núcleo de Terras e Habitações da Defensoria Pública do Rio, Maria Lúcia Pontes, vai pedir explicações ao município.

“Em nenhum momento a Defensoria foi informada sobre o cálculo destas desapropriações. É um absurdo pagar R$ 2 milhões numa casa naquela localidade, enquanto parte dos moradores já foram para um conjunto habitacional do governo. Não há isonomia no processo”, concluiu a defensora. Hoje, ela e outros moradores do local vão se reunir para discutir os critérios das desapropriações.

A maior parte das ruas da comunidade nem sequer é asfaltadaAndré Luiz Mello / Agência O Dia

Na lista das indenizações, ainda restam 81 casas. Até o momento, 27 famílias receberam indenização. Em nota, a prefeitura informou que, das 583 famílias que residiam na comunidade, 280 precisaram ser removidas. Deste total, 204 optaram pelo imóvel no conjunto habitacional Parque Carioca, e, posteriormente, mais 140 famílias pediram o reassentamento.

Vereadores pedem que TCM investigue o caso

Diante da falta de informação sobre reassentamento e desapropriação das famílias da Vila Autódromo, vereadores do Psol enviaram ofício ao Tribunal de Contas do Município exigindo uma inspeção extraordinária nos processos da prefeitura. O órgão deve se pronunciar em até 60 dias. Desde maio deste ano, 342 famílias da Vila têm um novo endereço: o conjunto habitacional Parque Carioca, a um quilômetro da comunidade. O empreendimento, que possui 900 unidades, foi construído pela prefeitura em parceria com o programa federal Minha Casa Minha Vida.

‘O preço da especulação’

Dos oito imóveis publicados nesta segunda no ‘Diário Oficial’ para desapropriação na Vila Autódromo, cinco possuem o valor de indenização superior a R$ 1 milhão. Equipe do DIA esteve na comunidade nesta segunda e constatou que todas as casas milionárias foram recém-reformadas e estão localizadas em um amplo terreno. Das 19 casas indenizadas pela prefeitura, 14 já foram demolidas.

Para o vice-presidente do Sindicato da Habitação (Secovi Rio), Leonardo Schneider, o município deve ter calculado a desapropriação em cima do valor imobiliário daquela região da Barra da Tijuca, que está em torno de R$ 8 mil por metro quadrado.

Acima%2C trecho do Diário Oficial que traz o valor de indenização de uma casaReprodução

“A prefeitura pagou pelo preço da especulação imobiliária. A localidade da Vila Autódromo será o coração das Olimpíadas e todo o bairro está em constante crescimento”, afirmou Leonardo. O presidente da associação de moradores, Altair Guimarães, criticou a posição do município sobre as desapropriações. Para ele, se as casas milionárias fossem vendidas, não passariam de R$ 150 mil. “Nenhuma casa aqui vale R$ 2 milhões. Alguém compraria um imóvel na favela por esse preço?”, indagou Guimarães.

Para a dona de casa Rita Timbó, de 61 anos, moradora da Vila há 25, a prefeitura está dando privilégio para algumas famílias. “Estão oferecendo uma quantia mínima para quem tem casa pequena e uma grana alta para os casarões. Todos deveriam ter os mesmos benefícios”, reclamou Rita. A remoção dos moradores da Vila Autódromo começou ano passado para dar lugar às obras olímpicas, e enfrentou forte resistência. Alguns imóveis foram demolidos para a duplicação das avenidas Salvador Allende e Abelardo Bueno, onde será erguido o Parque Olímpico.

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