Nova chance para Wilson Baptista

Marcado pela rivalidade com Noel Rosa, cantor e compositor ganha biografia. Autor espera que publicação ajude a fazer justiça à obra do sambista

Por O Dia

Rio - Não é uma batalha declarada, mas há quem diga que insinuações, envolvendo adjetivos nada elogiosos como recaldada e invejosa, nas letras de músicas das duas funkeiras de maior projeção no momento, Anitta e Valesca Popozuda, sejam indiretas de uma para a outra. Mas isso de mandar recadinhos provocativos entre compositores é coisa antiga, e teve, lá pela década de 1930, seus episódios mais populares, protagonizados pelos sambistas Noel Rosa e Wilson Baptista.

“Mandar recado cifrado em música vale até hoje, mas, vamos combinar, nunca se fez com tanta categoria como fizeram esses dois”, avalia Rodrigo Alzuguir, autor de ‘O Samba Foi a Sua Glória’ (ed. Casa da Palavra, 584 págs., R$ 58), biografia de Wilson Baptista que será lançada nesta terça-feira, na Brasserie Rosário (Rua do Rosário 34, Centro), às 19h.

“Quem começou com isso foi o Noel, porque eles paqueraram uma mesma dançarina, que preferiu ficar com o Wilson. Mas acabou que o Wilson entrou para a história como vilão, por conta de ter chamado o Noel de ‘Frankenstein da Vila’. Eles eram muito novos, as pessoas erram, mas o problema foi ele ter ficado a vida toda tendo que se desculpar, porque todo jornalista só queria saber disso”, explica.

Wilson Baptista volta à cena com biografiaDivulgação

Rodrigo acredita que, com a publicação, talvez consiga provocar uma revisão histórica e fazer justiça ao grande músico que foi seu biografado. “Quando se fala dele, as pessoas só lembram da treta com o Noel, porque isso foi muito massacrado na mídia. O Wilson fez muito sucesso, venceu muitos concursos de Carnaval e ganhou muito dinheiro. Acho que não ganhou a mesma notoriedade que o Noel porque ele era muito hedonista, gastava muito com mulheres e viagens, era politicamente incorreto, nunca pensou em construir uma carreira ou deixar um legado. O Wilson tem uma obra muito maior”, ressalta.

Alzuguir recorda outros bate-bocas históricos em forma de música. “Antes mesmo do Noel e do Wilson, por exemplo, Pixinguinha e Sinhô andaram brigando por meio de sambas. Sem falar na clássica briga de marido e mulher em praça pública entre Herivelto Martins e Dalva de Oliveira, que ficavam gravando músicas um detonando o outro, ele dizendo que ela não valia nada e a Dalva se lamentando, dizendo que era uma injustiçada. Foi um momento bem tenso”, conta.

Na verdade, ao contrário do que muita gente pensa, o autor revela que a briga entre Noel Rosa e Wilson Baptista era mais uma curtição do que algo que chegaria a levá-los às vias de fato. “Deram um peso muito grande a essa polêmica, que era mais coisa de brincadeira entre compositores em mesa de bar. Eles acabaram, inclusive, se tornando parceiros: certa vez, se encontraram em um botequim na Lapa e o Noel fez uma nova letra para um samba do Wilson, ‘Terra de Cego’, que virou ‘Deixa de Ser Convencida’ e era um recado para aquela tal morena do cabaré, onde tudo começou, veja só... Os dois, então, se aproximaram e combinaram de fazer outras parcerias, mas infelizmente o Noel morreu antes”, diz o autor.

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