Bia Willcox: Bem menos que 50 tons de modernidade

Alguns assuntos ficam tão presentes que é impossível evitá-los, é o caso do filme '50 Tons de Cinza'

Por O Dia

Rio - Alguns assuntos ficam tão presentes em qualquer círculo social que é impossível evitá-los. O filme ‘50 Tons de Cinza’ é um deles. Bem, eu sempre lutei para ver não somente o branco e o preto. Sempre tentei ver matizes, tons de cinza entre esses extremos e, por isso mesmo, tenho tentado entender o que levou tantas mulheres do mundo inteiro a terem tanto fascínio pela trama do livro e agora do filme.

Cena do filme ‘50 Tons de Cinza’: trama mexe com a imaginação femininaDivulgação


Há quem chame o romance de ‘Cinderela tarada’, já que os elementos do conto de fadas estão presentes — menina simples, vendedora de material de construção, desperta o interesse de um homem poderoso, rico e romântico, mas que pratica sadomasoquismo. E ela, a Cinderela, sente prazer em se submeter ao príncipe encantado e dominador. Ele é sarado, rico e a faz se vestir e se portar melhor. Fórmula infalível: a menina pobre conquista o homem rico e tenta se tornar a exceção em meio às mulheres que ele já ‘pegou’ no tal quarto vermelho dos chicotes e algemas.

O que me deixa perplexa é a mensagem embutida na trama. Anastasia (a Cinderela da trama) se apaixona por um homem milionário e, nos momentos em que está em seu helicóptero, planador, quarto vermelho ou mansão de gosto questionável, nos parece que seu encantamento sexual é um tanto maior. Como se, para viver um romance completo, precisássemos de todo esse aparato.

Outra: ela se forma em Letras, larga o emprego pra ficar na casa de Christian (o rico dominador) levando chibatadas sem demonstrar qualquer preocupação em planejar sua vida profissional pós-faculdade — algo que se espera de uma menina recém-formada dos dias de hoje, não? A história ainda vende a imagem da virgem que esperou até os 21 anos pelo seu príncipe. Nada contra ser virgem aos 21. Defendo a liberdade irrestrita com seu próprio corpo. Mas esperar pelo homem certo a essa altura do campeonato? E justo aquele almofadinha que a comprou com todo aquele luxo e ostentação? Ah, não. Deixo uma lição que aprendi: cuidado com essa história de idealizar o príncipe encantado. Ele pode não achar seu sapatinho de cristal perdido e ainda te trancafiar num quarto e te machucar. Literalmente.

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