Ney Latorraca estreia como diretor

Ator de 72 anos dirige a peça ‘As Cadeiras’ e afirma se sentir com cabeça e corpo de 20

Por O Dia

Ney Latorraca (no centro) faz a direção do espetáculo protagonizado por Tássia Camargo e Edi Botelho, que vivem um casal de idosos que recorda suas memórias para aliviar a solidão Divulgação

Rio - Aos 52 anos anos de uma bem-sucedida carreira, Ney Latorraca estreia amanhã o espetáculo ‘As Cadeiras’, no Teatro Candido Mendes, em Ipanema, desta vez no papel de diretor. “Tenho 72 anos e uma carreira que me deixa feliz como ator, sou realizado, os deuses do teatro me abençoaram. Dirigir era o que estava faltando. É um ciclo que se completa”, conta Ney.

Ele debuta na direção com um dos clássicos do autor franco-romeno Eugène Ionesco, considerado o pai do Teatro do Absurdo, que através da ironia retrata a existência como algo insignificante.

“Quando li esse texto, quis fazer. É um recomeço dirigir, é outra coisa. Parece que estou saindo da escola de teatro novamente. Tenho 72, mas me sinto com cabeça e corpo de 20 anos. Faço minhas caminhadas, me cuido. Estou cheio de disposição”, diz um animado e simpático Ney, que declara não se incomodar com o assédio do público. “Adoro que me reconheçam, venham falar. Quando não quero, fico em casa. Não aguento artistas que desejam isso a vida toda e quando conseguem fazem gênero. Nem estou falando do tímido. Falar com o público, com a imprensa, é parte do trabalho”, conclui.

Ney dirige Tássia Camargo e Edi Botelho, que vivem um casal de idosos. Eles tentam aliviar os momentos solitários revivendo histórias do passado como forma de eternizar essas memórias. Através de seus delírios, convidam um público imaginário para preencher as cadeiras da plateia e pretendem deixar uma mensagem para o mundo.

O diretor revela que os personagens vivem juntos, mas se sentem sós. “Não falamos da solidão que todos precisam de vez em quando, mas daquela que nos isola. Aquela que nossos medos, a violência, só pioram”, diz. A peça propõe também uma reflexão sobre a efemeridade da vida. Ney confessa que, depois do problema de saúde que teve há quatro anos, valoriza até as atividades consideradas mais triviais. “Quase morri. Percebi como coisas cotidianas podem ser ainda melhores. Me enxugar numa toalha branca felpuda e cheirosa, comer, dar essa entrevista, tudo é lucro hoje”, comemora ele, referindo-se às complicações decorrentes de uma cirurgia que fez em 2012, para retirada de um cálculo na vesícula. 

Com muita vontade de viver, ele admite que é intenso em tudo que faz. “Não senti a vida passar. Tenho essa curiosidade. O que me move é a paixão. A mesma paixão de pagar as contas em dia, coisas de quem foi pobre. Serve de termômetro para paixão de ganhar um prêmio. Vibro com as coisas”, reflete, acrescentando que acabou de renovar seu contrato com a Globo até 2019. “Sou prata da casa, gosto”.

Com uma vida dedicada à arte, 30 peças no currículo, o artista escolheu o texto de Ionesco para dirigir acreditando na contemporaneidade do tema. “Hoje falta olhar, o carinho, o afeto<MC0>. Vamos falar disso”.

A versão de Ney como diretor mantém o mesmo entusiasmo, irreverência e exigência que são algumas de suas marcas registradas. “Sou metódico. Gosto de pontualidade, acho uma joia. Ator concentrado, texto decorado, não fumar nos ensaios, poucos intervalos. Gosto de firmeza. Sou uma pessoa tensa, mas sem perder a alegria, o humor. O ator tem que valorizar o espaço do palco, que é o lugar para ele se realizar. Ali, ninguém interfere”, diz. Ele salienta que respeita desde sempre suas vontades. “Só faço o que quero, como quero e quando quero.”

Tássia Camargo afirma ter identificação com o estilo Latorraca de ser. “Me identifico com as exigências dele. Somos da mesma escola. Conheci o Ney em 1984, quando fizemos a minissérie ‘Rabo de Saia’. Ele é um irmão, amoroso. Com ele e com o Edi me sinto em casa, conhecemos nosso timing”, diz a atriz.

A peça é produzida por Ney, Tássia, Edi Botelho e Denise Escudero, e está sendo feita sem patrocínio. “A vida inteira fiz assim, mas claro que gostaríamos de ter. Espero que toda essa discussão ao redor da cultura transforme as coisas. Os artistas precisam de apoio”, torce Tássia.

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