Debate sobre futuro Dalai Lama preocupa China

Líder budista tibetano diz que seu título vai ser extinguido para evitar controle de Pequim

Por O Dia

Um dia após o governo chinês ter pedido a Tenzin Gyatso, o 14º Dalai Lama, líder espiritual tibetano exilado, que abandone “suas ilusões” sobre a autonomia do Tibete, acusando-o de tentar buscar, de forma encoberta, a independência da região, Ogyen Trinley Dorje - que detém o título de 17º Karmapa Lama, respondeu a Pequim afirmando que cabe ao Dalai Lama decidir se ele vai renascer ou não, após a sua morte. O Karmapa é o mais eminente lama (líder religioso do budismo tibetano) a ter fugido do domínio chinês no Tibete. Ele raramente entra no debate político entre Pequim e o Dalai.

Mas recentemente a China intensificou sua retórica contra o Dalai e tem pressionado governos a não recebê-lo, exigência que vem sendo acatada. A questão sobre a reencarnação do Dalai não é apenas um debate religioso, mas político porque está ligada à escolha do próximo líder espiritual do Tibete, uma das regiões mais problemáticas para Pequim. Laureado com o Nobel da Paz, o Dalai  - que fugiu do Tibete em 1959, exilando-se na Índia - disse que o título pode acabar quando ele morrer. Mas a China reagiu, afirmando que a tradição tem de continuar. Mais ainda, Pequim avisou que o próximo Dalai deve ser aprovado pelo governo. Os tibetanos temem que a China vá usar a questão da sucessão religiosa para dividir o budismo tibetano após a morte do Dalai, que completará 80 anos em julho. O temor é de que haja um novo Dalai nomeado por exilados e outro pelo governo chinês. A China já conseguiu controlar a segunda figura mais importante do Budismo Tibetano: o Panchen Lama, que poderia suceder o Dalai Lama. Em 1995, depois que o Dalai nomeou um menino no Tibete como a reencarnação do Panchen Lama anterior, a China o colocou em prisão domiciliar. Depois, instalou um outro em seu lugar. A maioria dos tibetanos rejeita o Panchen Lama nomeado pela China, considerando isso uma farsa.

Em visita aos Estados Unidos, o Karmapa Lama, 29 anos, disse que tem “crença total” na capacidade do Dalai Lama de decidir o seu destino depois de sua morte. “Nas tradições tibetanas não falamos muito sobre a reencarnação de um mestre vivo. Mas agora estão sendo criadas muitas questões. É apenas o Dalai Lama quem deve decidir sobre sua futura reencarnação. Há muitos declarações presumidas e esforços de adivinhação, mas eu não estou preocupado”, disse. O Karmapa tem ligação próxima com o Dalai, que em 1959 saiu do Tibete, invadido pela China comunista em 1950, exilando-se no Norte da Índia. Apesar de sua fuga através dos Himalaias em 2000, o Karmapa continua sendo reconhecido por Pequim como a 17ª reencarnação de sua linhagem espiritual.

O budismo tibetano considera que a alma de um lama de alto nível será reencarnada no corpo de uma criança após a sua morte. O porta-voz da chancelaria chinesa, Hong Lei, afirmou que a tradição da reencarnação remonta a séculos, ao reagir às declarações do Karmapa. “A reencarnação do Dalai Lama deve respeitar os rituais religiosos relevantes, o costume histórico e as leis e as regras do Estado”, afirmou Hong.

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