Filmes brasileiros refletem a crise social

Soma-se à leva “Insubordinados”, de Edu Felistoque, talvez o mais refinado do ponto de vista estético. Em preto e branco, explora a geometria dos espaços urbanos de São Paulo

Por O Dia

Em tempos de crise, o cinema brasileiro apresenta suas armas com uma série de filmes, alguns ainda inéditos, que promovem uma verdadeira devassa na realidade brasileira. Para quem acredita que os filmes nacionais destacam-se apenas no gênero das comédias ou das biografias de personagens conhecidos, o que esta leva mostra é um verdadeiro tratado de desmistificação.

Todos aprofundam um olhar que ganhou grandes proporções a partir de “O som ao redor”, de Kleber Mendonça Filho, que parte do cotidiano de um bairro de classe média do Recife para debater os mais diversos temas, como o desrespeito individual, a hipocrisia na relação entre patrões e empregados e a decadência de alguns setores da burguesia nacional.

Nesse sentido, os ainda inéditos “Que horas ela volta?”, de Anna Muylaert, e “Casa Grande”, de Felipe Barbosa, ambos consagrados em festivais no Brasil e no exterior, seguem a mesma linha. O primeiro apresenta o impacto da chegada de uma jovem filha nordestina numa família de classe média alta paulistana. Obrigada a dividir o quarto com a mãe, empregada há décadas da casa, ela desmonta a subserviência materna e a arrogância disfarçada de bondade dos seus empregadores.

“Casa Grande”, por sua vez, fala mais ao espírito dos cariocas, ao mostrar o impacto da queda da bolsa na vida de um operador do mercado financeiro que mora numa mansão na Barra. Tudo apresentado pelo ponto de vista do filho adolescente, estudante do São Bento, obrigado a sair da sua redoma de conforto social para conhecer outros extratos sociais.

Há mais exemplos, como o também inédito “Ausência”, de Chico Teixeira, em que um pré-adolescente da periferia paulista se vê responsável pelo futuro do irmão mais jovem e da mãe alcoólatra e “De menor”, de Caru Ribeiro, já lançado por aqui, em que uma defensora pública, também órfã, enfrenta em casa, com o irmão, problemas com os quais ela lida usualmente nos tribunais.

Agora, soma-se à leva “Insubordinados”, de Edu Felistoque, talvez o mais refinado do ponto de vista estético. Em preto e branco, explora a geometria dos espaços urbanos de São Paulo para espelhar a angústia de uma jovem que cuida do pai, um policial em estado terminal. Para sublimar o drama, ela inventa um romance cujos elementos estão à sua volta. É mais ou menos o que o cinema brasileiro contemporâneo tem feito. Buscar na criatividade um caminho para entender e superar a crise. Vem mais por aí.

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