Mistério em morte de promotor

Investigação reforça a hipótese de ‘suicídio induzido’ e crescem os protestos na Argentina

Por O Dia

Argentina - Enquanto milhares de argentinos tomam as ruas do país para exigir esclarecimentos sobre a morte do promotor Alberto Nisman, de 51 anos, as investigações sobre o caso ganham contornos ainda mais dignos de uma complexa rede de intrigas. A promotora que investiga o caso, Viviana Fein, explicou que a autópsia indica que Nisman teria se matado com um tiro na cabeça porque não houve “intervenção de terceiros”, mas ela não descarta a possibilidade de “suicídio induzido”. Viviana disse ainda que não foram encontrados vestígios de pólvora nas mãos do promotor que denunciou a presidenta Cristina Kirshner, apesar de apontar que o calibre 22 costuma produzir menos rastros. Ontem, ela pediu uma nova perícia na arma.

Para Sergio Berni, secretário de Segurança da Argentina, a ausência de pólvora não é determinante. “A prova depende da arma, da pólvora e da posição da mão. São fatores múltiplos. A mão poderia estar contaminada, o médico a tocou em certo momento. São vários fatores que indicariam negativo, apesar de ele ter disparado”, garantiu.

Protestos pedindo Justiça se espalharam por várias províncias. O promotor Nisman morreu 12h antes de apresentar denúncia ao CongressoEfe

Um dado que levantou dúvidas da família sobre a hipótese de suicídio foi a descoberta de um bilhete escrito por Nisman para a empregada com uma lista de compras para segunda-feira. Também enviou mensagens pela internet a amigos, dizendo-se confiante sobre a denúncia que faria.

Inspirados nos protestos em massa na França após o ataque ao jornal “Charlie Hebdo”, os argentinos adotaram o lema “Je suis Charlie” e exibiram cartazes escritos à mão “Yo soy Nisman” (“Eu sou Nisman”), além de frases como “Nisman obrigado” e “Parem os ataques”. Na noite de segunda-feira, os protestos se espalharam para várias províncias como Tucumán, Mendoza, Rosario, Salta e Córdoba. Ontem, houve ato na Praça de Maio, onde manifestantes chegavam a chamar a presidente de “assassina”. Em alguns bairros de Buenos Aires, grupos menores batiam panelas, como em 2001.

O promotor investigava o atentado terrorista contra a Associação Mutual Israelita Argentina (Amia), que matou 85 pessoas e feriu mais de 200, em 1994. Na sexta-feira passada, ele havia acusado Cristina de querer por fim à investigação para encobrir os supostos autores — terroristas iranianos — por conta de acordos comerciais com o Irã.

Nisman foi encontrado com um tiro na cabeça no domingo à noite em seu apartamento em Buenos Aires, 12 horas antes de apresentar no Congresso detalhes sobre a acusação contra a presidenta. O caso agora fica a cargo da juíza Fabiana Emma Palmaghini, que ontem vasculhou o apartamento de Nisman. Políticos de oposição também cobraram as investigações sobre a morte do promotor. Em outubro, haverá eleições presidenciais na Argentina.

Kirchner: ‘História sórdida’

Ignorando as críticas e suspeitas sobre seu governo, pelo segundo dia consecutivo a presidenta Cristina Kirschner usou o Facebook para dar sua opinião sobre o caso Nisman. “O mais importante é perceber que estão tentando fazer, com este julgamento sobre acobertamento (do Irã no caso Amia), o que se fez com o julgamento principal há 21 anos: desviar, mentir e confundir”, escreveu Cristina.

Na segunda-feira, ao insistir em tratar a morte do promotor como suicídio, a presidenta argentina denunciou a existência de uma história “muito sórdida e cheia de dúvidas” e defendeu as tentativas de seu governo de esclarecer o atentado de 1994. “No caso do suicídio do promotor, não só há estupor e dúvidas, mas uma história longa demais, pesada demais, dura demais, e sobretudo, muito sórdida.”

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