Caso Amarildo: MP questiona liberação de policiais na noite da morte de pedreiro

'Havia iminência de um ataque à base da UPP e os policiais foram dispensados?', apontou promotora Carmen Carvalho

Por O Dia

Rio - Em meio a reviravolta do caso Amarildo, a promotora Carmen Eliza de Bastos Carvalho questionou mais um fato investigado pelo Ministério Público: a liberação dos PMs da UPP Rocinha na noite em que o pedreiro foi torturado e morto — no dia 14 de julho de 2013 — mesmo com a iminência de um ataque a base da unidade. A possibilidade de ataque, argumentada pela PM, fez com que o Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar (Bope) fosse acionado para a comunidade. Um novo inquérito policial militar foi aberto para apurar as circunstâncias em que a tropa de elite da PM chegou ao local. 

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"Outro ponto é a questão do motivo do Bope na Rocinha. A informação oficial é a de que o Bope havia sido chamado porque havia uma imineêcia de ataque. E por outro lado também verificamos que policiais nessa circunstância de ameaça haviam sido dispensados às 22h. Então me parece ser contraditório: se tem uma ameaça à sede da UPP e os policiais militares a trabalho são dispensados", afirmou a promotora.

Um volume na viatura do Bope%2C que pode ser o corpo do pedreiro Amarildo%2C fez com que o Ministério Público reabrisse o casoReprodução / TV Globo

O Ministério Público investigará o que equipes do Bope faziam na Rocinha na noite do dia 14 de julho de 2013, em que a vítima foi torturada e morta. O MP suspeita de que o corpo de Amarildo tenha sido retirado da base da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) local em uma das viaturas do grupo de elite.

"Por outro lado, o Bope é acionado por volta das 22h e chega na Rocinha por volta de meia-noite. Duas horas para o Bope chegar no local onde está tendo ameaça de ataque? São circunstâncias que se agregam à constatação de um volume numa viatura. Mas repito: são circunstâncias que merecem ser investigadas", concluiu a promotora.  

Reviravolta renova esperanças da família

A reviravolta no Caso Amarildo, após a reabertura do inquérito que apura a morte do pedreiro, renovou as esperanças da família da vítima de ver esse mistério solucionado. "Eu adorei, porque o caso do meu marido estava quase ficando impune, porque a gente não sabia o que iria acontecer. Sumiu o corpo e ninguém sabia o que aconteceu. Tem dois anos que a gente não tem uma resposta do corpo do Amarildo. E agora graças a Deus e a Justiça que fizeram essa reabertura (do processo)", comemorou nesta terça-feira a viúva de Amarildo, Elizabeth Gomes da Silva, ao Bom Dia Rio.

Viúva de Amarildo, Elisabete Gomes teme represálias de policiaisEfe

Ela mantém a esperança de conseguir enterrar os restos mortais do pedreiro. "Espero que a Justiça faça eles (acusados) falaram cadê os restos mortais do Amarildo, para poder a família enterrar ele como digno. Mas eu e minha família temos medo de represália deles (PMs), como já entraram dentro da Rocinha e fizeram uma operação mentirosa, já que não era operação nenhuma, era para poder entrar dentro da Rocinha e pegar o corpo do meu marido", diz.

Na época do desaparecimento de Amarildo, o MP já havia analisado as imagens nas quais quatro viaturas do Bope são flagradas, cinco horas após a suposta sessão de tortura, entrando na rua que dá acesso à sede da UPP. Em depoimento, o então comandante da unidade, Major Edson Santos — que já fez parte da tropa de elite — contou que eles haviam sido chamados diante da iminência de confrontos com traficantes.

No entanto, após uma perícia detalhada dos vídeos, há a suspeita que o corpo do pedreiro possa ter sido levada na caçamba, já que um volume foi detectado na traseira de um dos veículos. Ao todo, dez homens do Bope serão investigados.

Os promotores descobriram que todas as quatro caminhonetes passaram pelo local, por volta da meia-noite, com os GPS ligados. Na sede da UPP, no entanto, o equipamento de um dos carros parou de funcionar às 0h24. Doze minutos depois, essa mesma caminhonete vai embora com o GPS desligado, que só volta a funcionar 58 minutos seu desligamento.

Corpo nunca foi encontrado

A morte do pedreiro Amarildo Dias de Souza ganhou as manchetes do Brasil e do mundo em 2013. Detido por PMs e conduzido da porta de sua casa, na Rocinha, à sede da Unidade de Polícia Pacificadora do bairro antes de sumir, o Caso Amarildo se tornou símbolo de abuso de autoridade e violência policial.

Segundo a versão da polícia, os PMs teriam confundido Amarildo com um traficante de drogas com mandado de prisão expedido pela Justiça.

De acordo com as investigações, no entanto, Amarildo foi torturado e morto por policiais militares em julho de 2013. Ao todo, 25 PMs são acusados de envolvimento no desaparecimento do ajudante de pedreiro, cujo corpo não foi encontrado. Eles respondem pelos crimes de tortura, ocultação de cadáver, fraude processual e formação de quadrilha.

No início deste mês, o major Edson Santos, ex-comandante da UPP da Rocinha, teve prisão revogada pela Justiça.os acusados da morte do pedreiro

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