MPF quer tirar nome do ex-presidente Médici de ponte em Volta Redonda

Abaixo-assinado que já recolheu mil assinaturas pede que Bispo Waldyr Calheiros, que lutou contra ditadura, seja o novo homenageado

Por O Dia

Rio - O nome de Waldyr Calheiros, bispo que se destacou na luta contra o regime militar no Sul Fluminense, é o mais cotado para substituir o do ex-presidente Emílio Garrastazu Médici — que comandou um dos governos durante a ditadura no Brasil, entre 1969 a 1974 — na ponte que cruza o Rio Paraíba do Sul, em Volta Redonda. O Ministério Público Federal recomendou ontem a mudança do nome junto à prefeitura e à Câmara de Vereadores. A sugestão reforça o movimento lançado em julho pela Comissão da Verdade do município, para que o bispo seja o homenageado na nomenclatura da estrutura.

Um abaixo-assinado com este pedido já coletou mais de mil assinaturas e deverá ser encerrado no dia 30 de novembro, quando se completa um ano da morte do religioso. A partir daí, será elaborado um projeto de lei, para ser votado na Câmara, propondo a mudança do nome.

Ponte Presidente Médici foi inaugurada em 1973%2C quando cidade foi considerada de segurança nacionalDivulgação

“A recomendação do MPF ratifica a intenção de boa parte das pessoas na cidade, de fazer justiça a Dom Waldyr, não apenas pela sua atuação contra o regime militar, mas também por ser uma figura emblemática, que dedicou sua vida em defesa dos pobres e operários, para combater as injustiças sociais. É uma legítima e digna proposta de reconhecimento”, disse Alex Martins, presidente da comissão. A prefeitura informou que a sugestão do MPF será encaminhada para análise da Procuradoria Geral do Município.

Alagoano, Dom Waldyr se tornou bispo da Diocese de Volta Redonda e Barra do Piraí e foi perseguido pela ditadura. Em seus trabalhos para resgatar a ação dos militares em Volta Redonda, a Comissão da Verdade encontrou um relatório do Serviço Nacional de Informação, assinado pelo então chefe do SNI no Governo Médici, general João Batista Figueiredo, que sugeria a cassação do bispo e sua prisão como subversivo.

Criada em setembro de 2013 na cidade, a comissão foca a repressão aos militantes católicos em 1967, o indiciamento de 13 padres, incluindo Dom Waldyr, e as prisões e demissões de funcionários da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN). “Para a Igreja não tinha diferença: se falou que estava sendo perseguido, a Igreja era obrigada a estar presente para defender. Esse era o nosso procedimento”, disse Dom Waldyr, antes de morrer.

Proteção à memória

A ponte que liga a Avenida 7 de Setembro ao bairro de Niterói foi batizada com o nome Médici em 1973, mesmo ano em que o município foi considerado área de segurança nacional. O MPF solicita que seja retirado o nome do ex-presidente de qualquer placa indicativa da ponte e que seja escolhida uma nova nomenclatura, “a partir de discussão pública com ampla participação da sociedade civil, obedecendo às normas constitucionais e legais, no prazo máximo de 90 dias”.

A recomendação expedida pelo MPF pede que seja revista a Deliberação nº 1218, de 9 de novembro de 1973, com base no princípio da impessoalidade e no direito à memória. Com base em procedimentos instaurados na Procuradoria da República no Rio, bem como em informações arquivadas pelo Projeto Brasil Nunca Mais, o MPF sustenta ainda que, durante o mandato do ex-presidente, ocorreu um grande conjunto de violações de direitos fundamentais do povo brasileiro, o cerceamento à liberdade de expressão e a outras liberdades individuais.

“A alteração do nome da ponte é importante para a proteção da memória e do patrimônio histórico-cultural, dado que o direito à memória recria a compreensão coletiva, permitindo um entendimento também sobre presente e futuro. É fundamental a mudança para não mais enaltecer um período em que tantas violações foram praticadas”, afirmou o procurador da República Julio José Araujo Junior.

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