Geraldo Nogueira: 'mulher, traga uma cerveja!'

Como os exemplos sociais são ruins, dado o atraso sociocultural em que vivemos, precisamos educar as crianças para manter essa identidade solidária

Por O Dia

Rio - O exemplo dado em casa pelos pais tem muito mais importância do que toda a educação dada na escola ou ensinada nos livros didáticos e nas histórias infantis. Nossa identidade é construída a todo o momento, e o que somos ou o que fazemos, gostamos, vemos ou não,é que nos posiciona perante os outros. Muitas das vezes essa construção diária nos conduz a um posicionamento contra alguém ou algo.

Recentemente recebi um vídeo por uma rede social em que faziam uma experiência com crianças de pouca idade. Duas eram deixadas a sós, sentadas em uma mesa, enquanto serviam-lhes dois pratos cobertos com protetores de refeição. As crianças, curiosas, destampavam os pratos e se surpreendiam com apenas um sanduíche em um dos pratos. Em todas as situações mostradas no vídeo, contendo um sanduíche inteiro ou partido ao meio, as crianças naturalmente dividiam o sanduíche entre si.

É muito curioso ver como uma criança, em muitos aspectos, não tem vícios, ainda é uma espécie de folha em branco e age por seu instinto natural e solidário. Por outro lado, essa 'folha em branco' é preenchida muito rapidamente pelos ensinamentos e exemplos que veem e vivenciam.

Como os exemplos sociais são ruins, dado o atraso sociocultural em que vivemos, precisamos educar as crianças para manter essa identidade solidária, sempre pensando no crescimento social comum.

Ter identidade é inevitável, e espontaneamente sentimo-nos atraídos pelas pessoas que partilham os nossos gostos ou valores. Isso é natural, mas o problema é quando essa identidade nos conduz a uma visão preconceituosa ou distorcida da realidade. As crianças começam cedo a notar as diferenças entre elas. Falam do amigo que tem a pele escura, da amiga que tem um sotaque esquisito ou do menino que tem uma deficiência. Por isso, precisamos desde cedo educar para a tolerância, ensinando que todos são iguais.

Uma professora propôs aos seus alunos, crianças de primeira infância, uma brincadeira de se passarem por adultos. Um dos meninos fingiu sentar-se no sofá e pedia à 'mulher' que lhe trouxesse uma cerveja, ao que sua coleguinha retrucou: "Vai você!" Ele respondeu: "Pode deixar que eu vou, sua aleijada inútil!" É fácil imaginar de onde vem esse exemplo. E perceber qual o modelo de identidade essa criança está adotando. Por isso, é fácil entender que devemos educar as crianças para o respeito, a igualdade e a tolerância com os outros.

Geraldo Nogueira é subsecretário municipal da Pessoa com Deficiência do Rio

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