Polícia e MP fazem operação contra esquema envolvendo clubes de futebol do Rio

Alvos são suspeitos de distribuir ingressos para torcidas banidas de estádios. Assessor da presidência do Fluminense está entre os presos

Por O Dia

Rio - A Polícia Civil e o Ministério Público do Rio (MP-RJ) realizam na manhã desta segunda-feira a 2ª fase da "Operação Limpidus", que tem como alvo dirigentes de clubes do Rio, empresas de vendas de ingresso e líderes de torcida organizada. O objetivo é desmantelar um esquema de repasse de ingressos por parte dos quatro grandes clubes do Rio para organizadas — algumas banidas dos estádios —  e a revenda através de cambistas. São nove mandados de prisão a serem cumpridos e até o momento sete pessoas foram presas. Outros cinco foram cumpridos contra alvos já presos. 

Entre os presos de hoje estão: o assessor de imprensa da presidência do Fluminense, Artur Mahmoud; o gerente de Arenas do Fluminense, Filipe Ferreira Dias; o coordenador da Imply, responsável pela confecção de ingressos, Leandro Schilling; funcionários da empresa, Monique Patrício dos Santos Gomes e Vinícius Carvalho; o presidente da Torcida Organizada Raça Rubro-Negra, Alesson Galvão de Souza; e um funcionário da Tesouraria do Flamengo, Claudio Tavares de Lima.

Artur Mahmoud%2C assessor da presidência do Fluminense%2C foi preso no desdobramento da operação LimpidusReprodução TV Globo

Outros cinco mandados de prisão preventiva foram expedidos contra alvos da primeira etapa da operação que estavam presos temporariamente. O promotor Marcos Kac, do Grupo de Atuação Especializada do Desporto e Defesa do Torcedor (Gaedest), não descarta o envolvimento de presidentes de clubes no esquema criminoso. 

"Ainda não temos informações de presidentes de clube envolvidos, mas há grande possibilidade de presidentes e vices estarem envolvidos nisso. Vamos investigar", disse, ressaltando que a próxima fase da operação vai focar nos mandatários dos clubes.

"A investigação continua e todos os citados poderão ser chamados para prestar depoimento, eles serão investigados e poderão ter a prisão decretada. O fato de não serem presos, não significa que eles não vão ser indiciados. Quem quer que seja pode a ser indicado, independente do cargo. As provas estão sendo colhidas e poderão ser presos a qualquer momento", reforçou o promotor.   

Segundo o promotor, cada clube e sua respectiva torcida tinha o seu esquema. Basicamente, os integrantes das organizadas recebiam os ingressos dos clubes e iam para as portas dos estádios para fazer a revenda. "Podemos dizer que hoje fechamos a primeira fase da operação." Em média 200 ingressos eram disponibilizado por partida, inclusive para jogos fora do país. O faturamento poderia chegar a R$ 25 mil, caso o jogo fosse um clássico. A meias-entrada era vendida entre R$ 40 e R$ 60.  

O repasse de ingressos de meia entrada para partidas do Brasileirão, da Libertadores e da Copa Sul Americana também será investigado. É que várias entradas dessas disputas foram apreendidas na primeira fase. "São dois crimes praticados. Um é por facilitação ao cambismo e o segundo é por estelionato, ao fornecer ingressos de meia entrada a quem não é merecedor desse benefício”, explicou Marcos Kac.

Outro alvo da operação desta segunda-feira foi o policial militar Edmilson José da Silva, chefe da segurança do clube Vasco da Gama. Ele não foi encontrado em sua residência no Recreio e é considerado foragido. Edmilson é responsável pela segurança pessoal de Eurico Miranda. 

Rodrigo Granja dos Santos, conhecido como Batata, e que seria chefe do transporte do Vasco também está sendo investigado e é considerado foragido.

"A investigação continua e todos os citados poderão ser chamados para prestar depoimento, eles serão investigados e poderão ter a prisão decretada. O fato de não serem presos, não significa que eles não vão ser indiciados. Quem quer que seja pode a ser indicado, independente do cargo. As provas estão sendo colhidas e poderão ser presos a qualquer momento", reforçou o promotor.

De acordo com a delegada Daniela Terra, titular da Delegacia de Repressão a Crimes de Informática (DRCI), o presidente do Fluminense, Pedro Abad, prestou depoimento e disse que forneceu ingressos para as organizadas até o final do brasileirão. "O Carlos (preso na primeira etapa da operação) disse que eles organizaram que 200 ingressos seriam repassados para todas as torcidas do Fluminense."

A operação é realizada por policiais da Delegacia de Repressão a Crimes de Informática (DRCI) e tem como base uma denúncia do Gaedest ao Juizado Especial do Torcedor e dos Grandes Eventos (JETGE). O objetivo é combater ilegalidades envolvendo dirigentes de clubes e integrantes de torcidas organizadas. As ilegalidades vão desde o desvio de ingressos para fins de cambismo, como o descumprimento de decisões judiciais por partes do clubes, que fornecem ingressos e financiam torcidas organizadas penalizadas com o banimento dos estádios por atos violentos. 

Na última semana, durante a primeira fase da operação, três integrantes de torcidas organizadas do Fluminense foram presos acusados de receber ingressos da diretoria do clube e revendê-los para cambistas. Membros das diretorias de Botafogo, Flamengo, e também do Fluminense foram conduzidos para prestar depoimento. 

Segundo a Polícia Civil, os quatro grandes clubes do Rio de Janeiro são suspeitos de fazer repasse de ingressos para torcidas organizadas, mesmo com estas suspensas de frequentar os estádios. A Imply, de acordo com ainvestigação, era contratada pelo Flamengo para fazer a venda dos ingressos. Além de meia-entrada, há grande possibilidade de ingressos direcionados ao programa sócio-torcedor terem sido desviados para o esquema criminoso. 

"Quem perde é a sociedade, pois os torcedores acabam perdendo o prazer de ir aos estádios e isso fomenta a atividade ilícita", disse a delegada Daniela Terra. 

Em nota, o Fluminense afirmou que confia na correção dos seus funcionários Filipe Dias, gerente de Operações de Jogos e Arenas, e Artur Mahmoud, assessor de imprensa da presidência. "Eles já prestaram todos os esclarecimentos quando chamados a depor como testemunhas. O clube considera as prisões desnecessárias e arbitrárias, e reafirma que vai seguir auxiliando nas investigações da Polícia Civil e do Ministério Público", diz trecho da nota.

Já a empresa Imply disse que "todos os ingressos dos jogos do Clube de Regatas do Flamengo são entregues direta e exclusivamente ao clube e registrados em protocolo." "A empresa não compactua e não tolera qualquer ato que comprometa os valores éticos estritamente seguidos desde a sua fundação, há 15 anos.” 

Em nota o Flamengo disse não ter qualquer tipo de participação em esquemas de repasses de ingressos para cambistas. “Pelo contrário: em todos os momentos em que o clube tomou ciência de práticas contra a lei no que diz respeito ao assunto notificou a polícia e colaborou com investigações para sempre defender os interesses dos rubro-negros. Nossos esforços são sempre aplicados para que toda colaboração dos torcedores com venda de ingressos, programa de sócio-torcedor ou qualquer tipo de interação com o clube vá para os cofres do mesmo e não para terceiros. O Flamengo valoriza muito a colaboração dos órgãos públicos no combate a qualquer tipo de fraude nessa ou qualquer outra área", informou o clube.

O DIA procurou o Vasco, o Botafogo, a Raça Rubro Negra e a Fiel Tricolor, mas eles ainda não se pronunciaram.

Confira todos os denunciados pelo Ministério Público:

1 - Manoel Oliveira Meneses
2 - Carlos Torres Junior
3 - Carlos Roberto de Almeida
4 - Ricardo Alexandre Alves Gomes
5 - Arthur Machado Mahmoud
6 - Filipe Ferreira Dias
7 - Luís Fonseca da Silva
8 - Alesson Galvão de Souza
9 - Leandro Shilling
10 - Cláudio Tavares de Lima
11 - Vinicius Carvalho
12 - Monique Patrício dos Santos Gomes
13 - Sávio Agra Sassi
14 - Rodrigo Granja Coutinho dos Santos
15 - Edimilson José da Silva

Colaborou Adriano Araujo


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