Voz marcante do Salgueiro, Bira do R coleciona 50 anos de histórias na escola

Locutor destaca a importância das agremiações de transmitir cultura para o povo. Esta reportagem faz parte da série 'Personagens do Samba'

Por O Dia

Rio - Durante quase 30 anos, quem frequentava a quadra do Salgueiro logo reconhecia a voz marcante que ecoava no espaço da Vermelha e Branca na Rua Silva Teles, no Andaraí, Zona Norte do Rio. Por trás dos microfones, o lendário Bira do R comandava os eventos da escola. Mesmo distante da função há quatro anos, Ubiratan Senjori de Souza Ferreira, de 79 anos, continua tendo o título de locutor oficial da agremiação.

Bira acumula 50 anos de histórias e experiências no Salgueiro. Com um vasto currículo na escola do coração, ele destaca a importância das agremiações de transmitir cultura para o povo. “A gente pode aproveitar para divulgar a cultura de nossa gente, para o povo mais humilde, que não tem condições de estudar. É o que nós podemos fazer, o samba tem essa função. Eu não morro sem provar isso”, enfatiza, emocionado.

Conhecido por sua voz marcante%2C Bira do R tem cinco décadas no SalgueiroMárcio Mercante / Agência O Dia

Formado em Direito e militar da reserva, Bira se dividia entre a Vermelho e Branco e o seu trabalho de controlador de voo no início da carreira. Ele conta que seu amor pelo Salgueiro começou em 1958, quando a agremiação levou para a Avenida Presidente Vargas uma homenagem aos 150 anos do Corpo de Fuzileiros Navais.

“A bateria do Salgueiro batia igualzinha a banda marcial dos Fuzileiros Navais. Quando eu vi, falei: 'caramba, rapaz, que escola é essa?!' Aí me apaixonei por ela”, conta Bira do R, com sua forma peculiar de falar que lhe garantiu o apelido que carrega até hoje. Ele foi filho de um fuzileiro naval.

Bira enaltece o carnavalesco Fernando Pamplona, que, segundo o locutor, com seus enredos levou a história do país para os brasileiros.“Eu tiro o chapéu para o Pamplona. Falou de Aleijadinho, Dona Beija, Xica da Silva e Chico Rei. Ele falou dessas figuras que a sociedade não quer que apareça, mas que fizeram a história do Brasil", defende.

Ele defende ainda “Chico Rei”, de 1964, como o desfile mais inesquecível do Salgueiro. Na época, a escola ficou sem segundo lugar, perdendo o título para a Portela.  "O Salgueiro perdeu com o melhor Carnaval que já botou na rua. Estava maravilhoso e tinha o balé (com uma coreografia encenando Chico Rei lavando a cabeça numa pia batismal). O Carnaval foi de uma grandiosidade tamanha, que nem mesmo “Peguei um Ita no Norte” (campeão em 1993), a meu ver, não superou”, relembra saudoso.

Bira do R, com passagens pela ala de compositores, onde fez algumas parcerias com ninguém menos que Nei Lopes, chegou a ficar afastado do Salgueiro por três anos, quando passou pela Estácio e a Império da Tijuca. Ele afirma que o trabalho de locutor é representar a escola por meio da voz.

“O comunicador que sabe lidar com o público vende a imagem da casa. Quando você está com o microfone na mão, tem que respeitar o público", ensina. Bira do R deixou de ocupar a função depois que sofreu um enfarto em 2013. "Você chega a um ponto que só tem um caminho: voltar. É terrível você ver um cara que tem uma projeção muito grande e você fica se arrastando na quadra. Tudo nessa vida se acaba", afirma, acreditando no potencial da nova safra, como Siromar, do Salgueiro, e Bocão, da Portela.

Bom humor e ensinamentos

Entrevistado pelo DIA, sob um calor de mais de 40 graus na Cidade do Samba, Bira não perdeu o bom humor. Ao ser questionado sobre a data de um determinado acontecimento, o locutor logo mandou mais um ensinamento.

"Sambeiro é aquele cara que faz samba, igual costureira, padeiro. Agora com sufixo “ista”, é aquele que ganha dinheiro sem fazer o troço. Dentista não faz dente e ganha dinheiro com aquilo que não faz. A língua-mãe vai ensinando a gente. Eu sou sambeiro. Já os sambistas é que sabem tudo de cór. 'Salgueiro ganhou no ano tal'... sabem tudo de cabeça, só data. Agora pergunta porque que o Salgueiro perdeu, porque ganhou, conhece o calor salgueirense? Aí não, então o cara é só uma máquina", explica, rindo, Bira do R.

O gesto da presidente do Salgueiro, Regina Celi, de dar o seu nome à brinquedoteca da Vila Olímpica da Vermelho e Branco enche de lágrimas os olhos do velho locutor. "O Bira não morreu, está nascendo de novo", diz, emocionado. "É impagável essa homenagem que ela me prestou."

Com um enredo este ano inspirado na “Divina Comédia”, de Dante Alighieri, e que homenageará carnavalescos como Fernando Pamplona, Arlindo Rodrigues e Joãozinho Trinta, Bira do R está confiante. “O enredo é fantástico. Conseguiram ajustar uma obra clássica da literatura mundial com o carnaval. Deu samba já!”, acredita.

A história de Bira do R foi a sexta da série ‘Personagens do Samba’, do DIA Online. As matérias especiais são publicadas todas as segundas, quartas e sextas-feiras. Na próxima quarta-feira, a vez é da Mocidade.

Reportagem de Adriano Araújo, Gabriela Mattos e da estagiária Luana Benedito