Marina na linha de sucessão

Abalada com a perda de Eduardo Campos, a vice do ex-governador, Marina Silva, se vê diante de clamor na rede para assumir disputa da coligação Unidos Pelo Brasil

Por thiago.antunes

Rio - Quando as cartas pareciam definidas, a morte de Eduardo Campos mostra que no jogo eleitoral o que parece certo é tão instável quanto surpreendente. Vice, Marina Silva, a petista do passado, a mulher criada no seringal, a dona de 19,6 milhões de votos em 2010, se vê diante de um ‘clamor’ nas redes sociais para assumir a disputa da coligação Unidos Pelo Brasil (PSB, PHS, PRP, PPS, PPL, PSL). Seu nome era o segundo mais citado, ontem, no Twitter. Perdia apenas para menções ao ex-governador de Pernambuco.

GALERIA: Morre Eduardo Campos

Marina poderia estar na aeronave que caiu. Mas como tinha um compromisso na capital paulista, embarcou num voo comercial com seus assessores. Não foi a primeira vez que escapou da morte. Na adolescência, no Acre, conseguiu sair ilesa de uma hepatite, cinco malárias, uma leishmaniose e da própria miséria, que dividia com os pais nordestinos e 11 irmãos no seringal Bagaço. Foi empregada doméstica, analfabeta até os 16 anos e religiosa. Sempre. Quis ser freira, mas acabou evangélica.

Marina é cotada para suceder CamposMurillo Constantino / Agência O Dia

“Eu acordava sempre às 4h da manhã, cortava uns gravetos, acendia o fogo, fazia o café e uma salada de banana perriá com ovo. Esse era o nosso café da manhã”, conta ela, na biografia da sua página de candidatura para a presidência. A relação com Campos, segundo ela mesma contou, ontem, começou a se fortalecer há dez meses. Foi quando o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) anunciou que não iria aprovar a criação do partido Rede Sustentabilidade.

A legenda era uma proposta do grupo de Marina, que havia saído do PV para estabelecer uma política mais ética no país. Diante da impossibilidade de levar a sigla à disputa eleitoral em outubro, surgiu a ideia da aliança com o PSB. E foi, assim, após uma longa madrugada de discussões com colegas da Rede, no dia 3 de outubro, que Marina e seu grupo decidiram que buscariam apoio do partido de Campos.

Marina Silva em 1994%3A nascida no Acre%2C ela lutou pelo meio ambiente com o sindicalista Chico MendesReprodução

“O esperado era que eu virasse a Madre Teresa de Calcutá da política, que fosse a candidata da internet. Muita gente ia curtir, mas isso não iria mudar nada na História. Seria cômodo para mim”, explicou Marina, aos jornalistas, sobre sua filiação provisória ao PSB, em outubro. Campos sabia que Marina tinha peso político de enorme valia no mercado eleitoral. Juntar-se a ela era aliar-se a uma candidata que, em 2010, foi o fenômeno da disputa na sucessão ao governo Lula.

Com um minuto e 23 segundos de propaganda eleitoral e uma intensa divulgação nas redes sociais, ela, então do PV, deixou a corrida pela Presidência da República com 20% dos votos válidos. Saiu fortalecida e consciente de que a terceira colocação dava à ela um enorme capital para futuras negociações partidárias.

Por mais crítica que seja à gestão Dilma Rousseff, Marina por alguns anos esteve no ‘staff’ político do PT. Foi ministra do Meio Ambiente do então presidente Lula — cargo que deixou após pedir demissão —, mas muito antes se elegeu vereadora, deputada estadual e senadora pelo partido. O rompimento aconteceu após mais de 30 anos de militância.

Com Campos%2C parceria de dez meses. Reuters

Em carta ao presidente Lula, em maio de 2008, ela disse que enfrentava dificuldades dentro do governo. “Esta difícil decisão, Sr. Presidente, decorre das dificuldades que tenho enfrentado há algum tempo para dar prosseguimento à agenda ambiental federal”, afirmava Marina, que voltou para o Senado. Em agosto de 2009, foi para o PV. Suas andanças políticas, nunca, no entanto, a afastaram de sua marca: a luta por questões ambientais.

Tanto que nas suas campanhas o desenvolvimento sustentável, o combate ao desperdício e a chamada economia verde sempre figuram como propostas de mudanças para uma nova gestão. Devido ao seu engajamento, Marina conquistou o ‘2007 Champions of the Earth’, o principal prêmio da ONU na área ambiental. Em outubro de 2008, recebeu, em Londres, a medalha Duque de Edimburgo, em reconhecimento à sua trajetória e luta em defesa da Amazônia brasileira. Em 2009, ganhou um prêmio da Sophie Foundation, na Noruega, concedido a pessoas e organizações que se destacam nas áreas ambientais e do desenvolvimento sustentável.

Cresce apoio na Internet

Logo que a notícia da tragédia foi confirmada, as páginas de Marina Silva na internet foram invadidas por comentários de apoio e pedido para que ela assuma a condição de cabeça da chapa do PSB. ‘Estamos contigo’ e ‘Força, Marina’ foram as postagens mais repetidas entre centenas que lotaram os perfis dela no Facebook.

A morte de Eduardo Campos abalou visivelmente a candidata. Com olhos marejados e abatida, ela pediu a Deus pela família do ex-governador e disse que aprendeu a respeitá-lo. “Esta é, sem sombra de dúvida, uma tragédia. Uma tragédia que impõe luto e muita tristeza. Foram 10 meses de intensa convivência e, como eu disse, começamos a fiar juntos principalmente a esperança de um mundo melhor, de um mundo mais justo”.

Uma assinatura que vale muito

Contribua para mantermos um jornalismo profissional, combatendo às fake news e trazendo informações importantes para você formar a sua opinião. Somente com a sua ajuda poderemos continuar produzindo a maior e melhor cobertura sobre tudo o que acontece no nosso Rio de Janeiro.

Assine O Dia