Crise freia expansão da frota de carros

Retração econômica tem efeito positivo na mobilidade urbana, gerando a ‘desmotorização’ forçada da população

Por O Dia

Rio - Se a crise está abalando todos os setores da economia — inclusive o dos transportes, que também sofre a alta dos custos —, para a mobilidade urbana ela tem sido favorável em pelo menos um aspecto. Vista como vilã do planejamento das cidades, a indústria automobilística foi atingida em cheio pela retração do poder de compra do brasileiro, uma queda de 20% na venda de carros novos de janeiro a setembro deste ano em comparação com igual período de 2014.

Nos primeiros nove meses do ano passado, foram registrados dois milhões de licenciamentos de automóveis no país. Este ano, foram 1,6 milhão no intervalo, apontou a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea).

Excesso de carros particulares é um dos vilões do planejamento urbanoEstefan Radovicz / Agência O Dia

Ainda assim, segundo o Denatran, o Brasil tem 49,3 milhões de automóveis — um para cada quatro habitantes. Em 2011, auge das facilidades de preços e crédito, o país tinha 39 milhões — um para cada cinco pessoas, considerando o tamanho da população naquele ano. Trocando em miúdos: a frota não deixou de crescer, mas, no auge da crise, cresce bem menos.

É o que os especialistas classificam como um movimento involuntário rumo à ‘desmotorização’. Esse conceito, que indica a diminuição do uso de carros e um maior uso do transporte público ou não motorizado, é tendência natural nas grandes cidades de diversos países desenvolvidos. Segundo dados da União Internacional do Transporte Público, em Londres, de 1995 a 2012, houve uma queda do número de veículos por mil habitantes de 10%. Já em Genebra, a redução foi de 8% no período.

“A queda na venda de carros reflete apenas o período de dificuldades do país e não é garantia de que o usuário do automóvel migrou para o transporte público. Além de infraestrutura de transporte de qualidade, precisamos de políticas que façam o uso do carro pesar no bolso, como cobrança de pedágio urbano nas grandes cidades”, ressalta Clarisse Linke, diretora do Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento (ITDP).

É preciso mais infraestrutura

O automóvel é o meio de transporte mais usado por 19% da população brasileira para ir ao trabalho ou à escola, sendo o terceiro meio de transporte mais adotado, segundo mostra pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI). O ônibus, transporte público mais utilizado no país, é a opção de um quarto das pessoas como seu principal meio de locomoção para as tarefas diárias. O segundo mais usado é andar a pé até o destino, com 22% da população.

O tempo gasto nos deslocamento dos que optam por ônibus também é o maior segundo a pesquisa, divulgada semana passada. Nesse grupo 22% levam mais do que duas horas, 28% levam entre uma e duas horas e 51% levam até uma hora em seus deslocamentos diários.

Para incentivar o uso do transporte público, reduzindo o tempo gasto nos deslocamentos e as emissões de poluentes, Richele Cabral, diretora de Mobilidade Urbana da Fetranspor, recomenda o investimento na infraestrutura, como os corredores BRT. “O número de carros por habitante é maior nos países desenvolvidos, mas as pessoas têm redes de transporte público integradas e usam o carro só para o lazer ou para complementar a viagem”, destaca Richele Cabral.

Rio tem um carro por 3,6 habitantes

No Rio de Janeiro, a frota de automóveis, apesar de ascendente, também vem crescendo menos. Nos últimos dez anos, o número de veículos emplacados começou a diminuir a partir de 2013, comparando os dados de setembro de cada ano.

De acordo com o Detran, o estado possui 16,5 milhões de habitantes para 4,5 milhões de automóveis — um veículo a cada 3,6 pessoas. “A venda de veículos novos cresceu muito principalmente a partir de 2008, pela conjugação de crédito mais elástico com taxas de juros não tão altas e a desoneração tributária. A partir de 2013, as desonerações começaram a diminuir, o que elevou um pouco os preços.

Em 2014, os créditos ficaram cada vez mais restritivos”, lembra o coordenador de Estudos e presidente do Conselho Superior do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT), Gilberto Luiz do Amaral. 

Entre setembro de 2005 e o mesmo mês de 2006, a frota fluminense aumentou 3,33%. De 2009 para 2010, o crescimento foi de 5,63%. A maior alta anual na última década foi entre 2011 e 2012 (5,92%). A partir de então começa o aumento mais contido da frota. Entre 2012 e 2013, a variação foi de 5,45%. De 2013 para 2014, 4,8%. De 2014 para 2015, apenas 3,78%.

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