Maneira como PMs abordaram menor suspeito na Lapa divide especialistas

Ex-capitão do Bope criticou ação, mas lembrou que tropa nas ruas vive sob tensão após mortes

Por O Dia

Rio - A abordagem policial a um adolescente de 16 anos publicada nesta quinta-feira em O DIA Online chamou a atenção de quem passava pela Lapa e provocou debate entre especialistas em segurança e defensores de direitos humanos. O DIA flagrou dois militares do 5º BPM (Praça da Harmonia) imobilizando o suspeito para revistá-lo. Em uma das imagens, um dos PMs mostra na palma da mão um cordão que teria sido encontrado com o rapaz após um roubo. O jovem foi encaminhado à Delegacia de Proteção à Criança e Adolescentes (DPCA). Segundo a Polícia Civil, ele responderá por fato análogo ao crime de furto.

De acordo com testemunhas, o suspeito atravessou correndo a Rua Mem de Sá em direção à Gomes Freire. Na esquina das duas vias, ele foi interceptado pelos PMs. Com as mãos para cima, o menor passou pela abordagem dos policiais e chegou a ser jogado no chão após levar uma rasteira. Pouco antes, o acusado teve a pistola apontada contra o seu peito.

Galeria: Veja a sequência da abordagem

Com a pistola a poucos centímetros do suspeito%2C PM aguarda a chegada de colega. Depois%2C na mão espalmada%2C o cordão encontrado com o menorAlexandre Vieira / Agência O Dia

Procurada, a assessoria da Polícia Militar, inicialmente, disse que uma viatura do 5º BPM foi enviada ao local para averiguar denúncia de uma tentativa de assalto e que a ocorrência não havia sido confirmada. Após a publicação da reportagem pelo ‘Dia Online’, ontem à tarde, a corporação confirmou o fato. A PM afirmou ainda que o menor furtou um cordão, que foi recuperado. Segundo a polícia, a vítima identificou o jovem.

“Isso não é maneira de um policial abordar um suspeito, independente se este é menor ou não. Só se aponta uma arma se o acusado estiver armado ou se sacar uma arma, oferecendo algum risco, o que não foi o caso”, analisou Paulo Storani, antropólogo e ex-capitão do Batalhão de Operações Especiais (Bope).

Ainda segundo o especialista, policiais militares estão trabalhando sob forte estresse após os seguidos casos de colegas de farda feridos e mortos no Rio. “Há uma enorme tensão nas ruas. É evidente o esgotamento físico e psicológico, que reflete na ação policial.”

Conhecido entre os policiais pela disciplina rígida que implantou no 15º BPM (Duque de Caxias), o coronel Paulo César Lopes criticou apenas o fato de os militares terem dado a rasteira no menor. “Apontaram a arma para garantir a integridade física”, opinou o oficial aposentado.

Para Paulo Amêndola, ex-coronel da PM e um dos fundadores do Bope, os policiais poderiam ter imobilizado o jovem sem derrubá-lo. “Não havia necessidade de dar a rasteira e pegar no pescoço do suspeito. Era só um PM fazer a abordagem e o outro dar cobertura. Usaram da violência. Foi desproporcional”, criticou Amêndola, que ponderou: “Porém, é importante o PM ficar atento, pois menor também atira e mata.”

Darlan e Freixo fazem críticas

Desembargador do Tribunal de Justiça do Rio, Siro Darlan viu as imagens do DIA e criticou a ação policial na Lapa. Ele prometeu ainda cobrar providências ao comando da Polícia Militar. “Vou pegar as imagens e enviar à corporação. O que estes menores vão aprender com estas abordagens? O Estado fabrica bandidos no Degase e no sistema penitenciário”, esbravejou o magistrado.

Já o deputado estadual Marcelo Freixo (Psol) levantou outra questão. “Se o menor corresse, os policiais iriam atirar? Para que sacar uma arma, se o menor não estava armado? A corregedoria deve apurar e investigar, pois mais uma vez vimos uma ação inadequada da polícia”, disparou.

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