Jaguar: Humor profético

Arnaldo Jabor parece um personagem criado por Nelson Rodrigues: Arnaldo, o apoplético cívico

Por felipe.martins , felipe.martins

Rio - Quatro humoristas, o Barão de Itararé (1895-1971), Sérgio Porto (1923-1968), Millôr Fernandes ( 1923-2012) e Jaguar (1932-2016) definiram com precisão o atual momento político. Barão: “De onde menos se espera, daí mesmo é que não sai nada.” Sérgio : “A prosperidade de alguns homens públicos do Brasil é uma prova evidente de que eles vêm lutando pelo progresso do nosso subdesenvolvimento.” Millôr : “Hay Gobierno, soy contra. No hay Gobierno, también soy contra.” Jaguar : “A vaca não está indo para o brejo. Está esperando o brejo chegar até ela.”

Arnaldo Jabor parece um personagem criado por Nelson Rodrigues: Arnaldo, o apoplético cívico. Eu diria que ele é um personagem de Nelson Rodrigues não autenticado. Cineasta de mão cheia, também escreve bem; sua coluna é a primeira coisa que procuro nos jornais em que colabora. Só ele tem licença de porte de adjetivos, que dispara como uma metralhadora giratória. Fico imaginando a cena: Nelson Rodrigues, na redação, batendo à maquina com dois dedos ‘A Vida como ela é’ enquanto Jabor, invisível para o Shakespeare dos trópicos, voeja à sua volta, gritando sem ser ouvido: “Me bota nessa!” E foi esse personagem que nunca foi criado por Nelson que um dia me interpelou, apoplético, enquanto eu bebericava com Célia nossos Dry Martinis na piscina do Copacabana Pálace: “’Jaguar, este não é o seu lugar!” Tal e qual o Bispo Macedo exorcizando ‘Sai, Satanás , este corpo não te pertence!’, ele queria dizer que aquele não era o meu cenário.

Jabor estava certo. O que eu, que sempre frequentei pés sujos, botecos e biroscas da Lapa e adjacências, estava fazendo naquele lugar cheio de bacanas? Expliquei que Mariana, filha da Célia, tinha pedido, como presente de casamento, passar a noite de núpcias no Copa. E o gerente me deu um desconto em troca de um autógrafo no seu exemplar de ‘Confesso que bebi’. Estava explicado o inexplicável.
Só lamento ter esquecido de perguntar o que um personagem de Nelson Rodrigues estava fazendo na piscina do Copa. Sua alegre ferocidade sempre me divertiu. Mas na sua crônica mais recente ele estava desanimado, jururu. Me deu vontade de sentar no meio fio e chorar lágrimas de esguicho, como diria Nelson.

Jaguar é cartunista


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