'Não saio de casa sem rímel e batom', diz Juliana Caldas

Atriz estreante em novelas vive anã rejeitada pela família em 'O Outro Lado do Paraíso'

Por O Dia

Não é fácil ver as humilhações sofridas por Estela, papel da estreante Juliana Caldas, em 'O Outro Lado do Paraíso'. Na trama de Walcyr Carrasco, ela é rejeitada pela mãe por ter nanismo. Na entrevista a seguir, Juliana fala sobre os embates com a personagem de Marieta Severo - as duas já choraram depois da gravação -, o preconceito da sociedade e se declara vaidosa. Além de não sair de casa sem rímel e batom, a atriz, de 30 anos, não come doces e sempre faz exercícios físicos para fortalecer a coluna e os joelhos. Nas redes sociais, Estela já foi aprovada: "O povo tem abraçado com palavras a Estela na internet".

Juliana CaldasDivulgação

Seus pais também têm nanismo. Sua casa é adaptada? Meu pai tem nanismo, e meu irmão também. Mas minha casa nunca foi adaptada.

Você sofreu preconceito na escola?
Não. Eu estudei com a mesma galera até o ensino médio. A gente vive o preconceito em geral quando falamos em sociedade. Não temos a acessibilidade necessária porque é um tal de 'se vira'. Mas o mais comum é o pessoal caçoar de você e dar risada.

Você tem namorado?
Não. Estou solteira.

Sempre foi atriz?
Não. Antes de atuar eu já trabalhei em telemarketing e também em banco.

É verdade que a Marieta Severo já chorou em cena?
Marieta e eu nos emocionamos muito durante os ensaios e preparação para a novela em que trabalhamos nos pontos fortes de rejeição. Mas em cena, na novela, Sophia não chora. Ela sente vergonha da filha, Estela, e quer vê-la longe.

Como lida com as humilhações da personagem Sophia na trama?
É difícil ouvir o que a Sophia diz e saber que aqui fora, no mundo, existem pessoas assim. Foram cenas difíceis tanto para mim quanto para a Marieta. A gente tem conversado muito antes de algumas cenas. Hoje mesmo a gente fez uma cena difícil para a Estela, e não deixa de ser difícil para eu ouvir o que a Estela ouve. Eu demorei um tempo para voltar para a realidade. E, pode ter certeza, porque eu fui pesquisar com outras pessoas que sofreram rejeição não só pelo nanismo, mas também por terem outras deficiências, que essas cenas me deixam bem mexida. Mas acredito que está sendo um trabalho incrível e o público vai se envolver também.

Você acha que essa novela levantando essa história pode contribuir para reduzir o preconceito?
Claro. É o que eu realmente torço muito. Que aumente a visibilidade para as pessoas não só com nanismo, mas para as pessoas com deficiência em geral. Eu trabalhei com moda inclusiva e com outras pessoas com deficiência e aprendi muito com elas também. Eu sempre lutei para impor esse respeito não só para o nanismo. Claro que agora as pessoas vão conhecer mais coisas sobre o nanismo. Só que eu acho que o respeito vale para todos, não só para uma pessoa com deficiência. Porque antes de termos uma deficiência ou sermos diferentes, nós somos todos seres humanos.

Como conseguiu o papel na novela?
Foi através da agência que faço parte, que me indicou. Abriu um teste para o papel no Rio e em São Paulo, onde eu fiz o teste e passei. É meu primeiro trabalho em novelas, na Globo e ao mesmo tempo é meu primeiro trabalho grande. Eu venho do teatro infantil, o que é totalmente diferente. É minha primeira novela e que aborda o drama da rejeição e do preconceito. Foi uma mudança de oito para oitenta na minha carreira.

Teve alguma preparação psicológica para lidar com o retorno do público e possíveis 'haters'?
Não. Mas eu tenho me preparado sozinha psicologicamente para pontos negativos que a internet sempre aponta. Ninguém é obrigado a gostar de tudo, eu sei.

Juliana CaldasDivulgação

Na novela você é rejeitada pela sua mãe. Na vida real já sofreu algum tipo de rejeição?
Pela minha mãe nunca. Ela sempre me aceitou e me incentivou. Eu, por sorte, não tive problema na minha casa, com a minha família, nem com os meus amigos. Agora com a sociedade... Sempre!

Qual é a maior dificuldade de uma pessoa com nanismo no dia a dia?
Há uma necessidade de melhor aplicação das políticas públicas, principalmente em relação a acessibilidade em lugares públicos e no transporte público. No dia a dia essa é a necessidade impactante. Também há falta de médicos especialistas em nanismo. E é chato ter que ficar lembrando as pessoas sobre essa questão do respeito e da acessibilidade. A maioria das coisas não é acessível.

Aconteceu algo pontual na sua vida na questão de acessibilidade?
Algo que é marcante pra mim e que faço questão de contar aconteceu quando uma vez eu fui comprar um ingresso em uma casa de shows, em São Paulo, e a menina da bilheteria não queria me vender o ingresso porque eu pedi na área de deficiente, que é uma área que é mais para frente, mais próxima do palco. E ela me disse que não poderia me vender porque aquela área era só para cadeirante. E argumentou que eu não era deficiente. Mas não é só cadeirante que é deficiente... porque se eu ficar numa área que não é separada eu não conseguiria ver absolutamente nada do show. Eu chamei a supervisora dela, que também se recusou a me vender. Eu argumentei que era a lei, e que aquelas pessoas que lidam com o público deveriam saber. Liguei para o meu advogado, mas só quando ameacei chamar a polícia foi que ela recuou e me vendeu o ingresso. Foi muito constrangedor. Mas muito acham que só cadeirante é deficiente.

Você é vaidosa?
Sim, muito. Sou mulher. Não saio de casa sem rímel e batom.

O que faz para cuidar do corpo?
Tento sempre fazer algum tipo de exercício sem impacto para fortalecer a coluna e joelhos por causa da nossa estrutura do corpo. Não sou de comer muita besteiras e nem doces.

A gente sempre vê pessoas com nanismo em papéis cômicos ou sofrendo algum tipo de escárnio em programas de comédia. O que você acha disso?
Eu como telespectadora não acho graça a partir do momento que há humilhação ou falta de respeito. Agora também não julgo quem faz, cada um é cada um.

Qual resultado você espera desse um papel representativo como esse em uma novela das nove?
Meu maior desejo é representar a realidade das pessoas com nanismo da melhor forma. Acredito que através da novela, as pessoas possam entender nossas limitações, compreender que não somos só pequenos e que o fato de não crescer gera impactos no nosso corpo e na sociedade. Torço para que essa visibilidade melhore a acessibilidade e o olhar e que as pessoas não nos julguem pelo nosso tamanho e sim pela nossa capacidade.

Qual é o seu maior sonho?
Difícil pensar algo agora... Mas acredito que estou realizando neste momento um grande sonho profissional. Era um sonho que realmente eu deixei guardado. Interpretar uma personagem que sai do estereótipo do engraçado e da comédia e fazer algo mais profundo. Não imaginei que seria em uma novela. Isso me enche de orgulho e de vontade de acertar. E aí aconteceu o teste para a novela e juntou tudo: a atuação e uma história que trata sobre o preconceito com o nanismo.

Juliana CaldasDivulgação

É verdade que a Globo investiu pesado no seu figurino para a novela?
A figurinista Ellen Millet investiu em um visual para a Estela como uma mulher estilosa e vaidosa, que morou muitos anos no exterior. Ela também teve o cuidado de em nenhum momento infantilizar o figurino, como muitos vêem os anões. Achei isso maravilhoso porque como somos anãs, as pessoas acabam se espantando em ver nossa vaidade.

Você espera que a novela abra portas para a sua carreira?
Claro. Eu penso nisso e espero que isso aconteça. E quero que não abra só para mim, mas também para os outros anões que são atores. Óbvio que essa oportunidade abriu porque a novela fala do nanismo. Torço para que essa oportunidade abra muitas outras portas. Assim como existe na sociedade o anão que é médico, o anão que é advogado, temos o anão ator. Essa visibilidade será ótima para o nosso trabalho.

Como tem sido a reação das pessoas nas ruas desde que a novela estreou? Recebe muito incentivo?
Eu não tenho tido ainda muito retorno nas ruas porque quase não saí desde que a novela estreou. Eu gravo todo dia e estou tirando o fim de semana para descansar. Tenho visto a repercussão nas redes sociais e a reação tem sido positiva. Acham um absurdo uma mãe tratar uma filha assim. O povo tem abraçado com palavras a Estela na internet.