Embrapa cria embalagem comestível a partir de frutas e hortaliças

Após oito anos de pesquisa, empresa desenvolveu filme plástico livre de derivado do petróleo. Sem prazo para chegar ao mercado, projeto já tem empresas interessadas na produção em escala industrial

Por O Dia

São Paulo - Imagine comer uma maçã e, junto, a embalagem que a envolve. Ou, então, preparar uma sopa e colocar o sachê de tempero diretamente na água fervente. Ou ainda levar o frango com saquinho e tudo ao forno. Embora esses exemplos pareçam ficção científica, já são realidade. Pesquisadores da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) desenvolveram um filme plástico comestível produzido a partir de beterraba, mamão, goiaba e tomate. Na composição não há derivado do petróleo, como ocorre com o papel-filme tradicional. Mesmo assim, mantém a mesma resistência, textura e capacidade de proteção.

Ainda não há prazo para que o produto chegue ao mercado, mas o doutorando Marcos Vinicius Lorevice, que participa do projeto ao lado de pesquisadores da Rede de Nanotecnologia Aplicada ao Agronegócio (Agronano), afirma que já há empresas interessadas em produzir o filme comestível em escala industrial. Foram investidos R$ 200 mil e oito anos de estudos para chegar ao resultado das películas coloridas naturais que não necessitam de nenhum derivado de petróleo. A matéria-prima é composta por água, polpa de fruta e biopolímeros.

“A ideia era criar uma embalagem usando matéria-prima renovável para diminuir a dependência do plástico derivado do petróleo, que não é renovável”, explica Lorevice. Outro benefício do filme comestível está justamente na questão ambiental. Ao contrário do plástico convencional, que pode levar até 400 anos para se decompor, a nova embalagem, quando descartada, se desfaz em poucos meses. Ou então, é possível compostá-la para obter adubo.

Lorevice diz ainda que o produto pode se tornar uma fonte de renda adicional ao agricultor, pois a matéria-prima pode ser aquele alimento feio e pouco atraente para venda, que seria descartado. Calcula-se que exista uma perda de 30% de frutas e hortaliças desde a colheita até a mesa do consumidor. “Tomate e maçã são produtos muito sensíveis ao visual, por exemplo. Assim, é possível aproveitar esses alimentos que ainda têm qualidades nutritivas e aplicar nesse filme. Agrega-se valor a um produto que era considerado resíduo e diminui-se o desperdício”, exemplifica o doutorando.
O plástico comestível é feito basicamente de alimento desidratado misturado a um nanomaterial (também vegetal) que tem a função de dar liga ao conjunto. Por isso mesmo, diz Lorevice, o maior desafio foi encontrar a formulação ideal de ingredientes e proporções para que o material tivesse as características necessárias.

Uso apenas como embalagem secundária

Embora a aplicação do filme comestível possa ocorrer nas mais diversas formas, como embalagem só deve se dar de forma secundária, envolvendo o produto, em contato direto com o alimento. Assim, evita-se qualquer tipo de contaminação a que as embalagens tradicionais estão expostas. Ainda assim, tem a característica de proteger, pois a resistência é comparável à do filme normal.

PLÁSTICO DE COMER

? Mamão, espinafre, maçã, beterraba e até alguns tipos de temperos são exemplos de alimentos que podem ser utilizados como matéria-prima na composição do filme comestível em substituição ao material sintético, normalmente derivado de petróleo.

? Essa matéria-prima passa pelo processo de liofilização, um nome complicado para explicar uma simples desidratação. Após o congelamento do alimentos, toda a água contida nele se transforma do estado sólido diretamente ao gasoso, sem passar pelo estado líquido.

? O resultado é um alimento completamente desidratado, mas que mantém suas propriedades nutritivas. A película comestível é polivalente: dissolve fácil na água e pode ser consumida na forma de sucos e vitamina. No futuro, o sachê que acompanha sopas se dissolverá sozinho na água.

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