Serviços têm taxa positiva, mas com maior desaceleração

Receita nominal cresceu 1,6% em janeiro, a menor taxa desde 2012. Descontada a inflação, setor teve retração de 7,1% no mês

Por O Dia

Rio - O setor de serviços, um dos poucos que ainda mantêm taxas positivas de crescimento na economia, dá sinais contínuos de desaquecimento. Em janeiro, a receita nominal de serviços aumentou 1,6% na comparação com janeiro do ano passado — a menor taxa de crescimento mensal da série histórica da Pesquisa Mensal de Serviços do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (PMS/IBGE), iniciada em janeiro de 2012.

Outro sinal de que o cenário é pouco favorável está na disseminação da perda de dinamismo entre as atividades e as regiões pesquisadas. Das 11 atividades analisadas, nove apontaram desaquecimento na passagem de dezembro para janeiro e 22 das 27 unidades da federação tiveram resultados menos expressivos em igual comparação. No acumulado do ano, o setor cresceu 1,6% e, em 12 meses, a expansão foi de 5,4%.

Embora o IBGE ainda não adote um deflator para o cálculo da pesquisa de serviços, especialistas consideram que, ao se descontar a inflação dos serviços — 8,8% nos 12 meses até janeiro, segundo o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) medido pelo IBGE — a receita real do setor teve retração de 7,1%. Esta é 11º taxa negativa de crescimento na série deflacionada pelo IPCA.
“Em 2014, o crescimento da receita nominal dos serviços (de 6,0%) já havia perdido para a inflação do setor, que ficou em 8,6%. Em 2013, a inflação de serviços também foi de 8,6%, mas a receita nominal avançou 8,5%. O melhor resultado anual ocorreu em 2012, ano em que o resultado divulgado pela PMS, de 10%, avançou mais que a inflação, de 8,1%”, aponta o economista da Confederação Nacional do Comércio (CNC), Fabio Bentes.

Com a inflação dos serviços em 8,8% em janeiro, a única atividade que apresenta uma aparente expansão em janeiro, os serviços prestados às famílias, ficou, na verdade, estável. A atividade registrou aumento na receita nominal de 8,6% no primeiro mês do ano. Em dezembro, o crescimento havia sido de 8,8%.

“A variação expressiva da receita dos serviços prestados às famílias esconde, na verdade, o fato de o IBGE não trabalhar sobre taxas reais, apenas nominais. Se considerarmos a inflação de 8,8% em 12 meses, o que era crescimento indica estabilidade”, afirma o gerente de economia da Fecomércio RJ, Christian Travassos.

“Mas a tendência é de desaceleração, especialmente dos serviços supérfluos prestados às famílias. Em uma conjuntura desfavorável, é razoável que muitos desses serviços sejam reduzidos pelo consumidor, até que passemos por esse momento mais difícil da economia”, acrescenta Travassos.

A queda do dinamismo empresarial e a menor demanda do governo por serviços terceirizados, em função do ajuste fiscal, explicam também os resultados pouco animadores do setor em janeiro. As principais pressões negativas vieram de segmentos mais intensivos em conhecimento: serviços de informação, com retração de 2,5%, e serviços técnico-profissionais, com queda de 6,5%. Já os serviços que demandam uma qualificação profissional menor, como os administrativos e complementares, estão com expressivo crescimento: de 9,7%.

“Essa tendência clara de queda e o seu perfil generalizado sugerem que a demanda empresarial dos serviços é o fator que, no momento, mais pressiona o desempenho do setor, ainda que as atividades que atendem principalmente à demanda das famílias também mostrem decréscimo, mas de modo mais discreto”, observa o consultor da Fundação Getulio Vargas (FGV/ Ibre), Silvio Sales.

Segundo o especialista, a análise regional também reforça que os serviços têm perdido mais ritmo em locais com mais densidade econômica, como o Sudeste. “Enquanto a receita de serviços no país ficou em 1,6% em janeiro, São Paulo registrou uma expansão de apenas 0,4%. Por atividade, os serviços de informação em São Paulo apontaram para uma retração maior que a nacional, em 6,3%”, completa Sales.

Confiança em baixa não aponta para melhora

Consultor da Fundação Getulio Vargas (FGV/ Ibre), Silvio Sales avalia que o setor de serviços deve manter a tendência de desaceleração ao longo de 2015. Segundo o especialistas, as pesquisas qualitativas, como as sondagens com empresário do setor, continuam apontando para uma queda na confiança, impulsionada pelas perspectivas de redução da demanda de consumo no país.
“A sondagem mede o pulso dos empresários e consolida essa impressão de baixa confiança. Os indicadores da FGV/Ibre estão em fevereiro já, mas eles não alteram os dados e acentuam essa trajetória de perda de confiança”, diz.

O mesmo clima de pessimismo nos serviços aparece na indústria. O Índice de Confiança do Empresário Industrial (Icei), divulgado ontem pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), mostrou queda para 37,5 pontos em março, o menor patamar desde janeiro de 1999, quando a pesquisa começou a ser feita, e abaixo da linha de 50 pontos, o que indica falta de confiança. Esta foi a terceira queda consecutiva mensal do indicador, que está 19 pontos abaixo da média histórica, de 56,5 pontos.
“Isso é resultado do fraco desempenho da indústria, das incertezas sobre o impacto das medidas de ajuste da economia e da preocupação com a crise da água e do aumento da energia”afirmou, em nota, o economista da CNI, Marcelo Azevedo.

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