Efeito dominó na economia cria perdas que vão da fábrica ao comércio

A baixa confiança de empresários e consumidores gera efeitos em cadeia e abala mais os setores de bens de capital e consumo duráveis

Por O Dia

Em patamares cada vez mais negativos, que se assemelham aos de 2009, a falta de confiança de empresários e consumidores tem provocado um efeito dominó na economia, puxando para baixo o ritmo de atividade de setores ligados aos bens de capital e consumo de duráveis, desde a produção na fábrica até a venda no comércio. Nos últimos 12 meses até janeiro, a produção de bens de capital caiu 10,9% e a de duráveis, 9,9%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em paralelo, as vendas no varejo ampliado, que incluem materiais de construção e veículos, têm queda de 2,4% em igual período.

“A confiança está em patamares extremamente baixos”, diz o superintendente adjunto de Ciclos Econômicos da FGV/Ibre, Aloisio Campelo, referindo-se aos números da prévia de março do Índice de Confiança da Indústria (ICI), divulgados ontem, que chegou aos 76,2 pontos, o menor nível desde fevereiro de 2009 (75,4 pontos).

Da parte dos consumidores, o cenário também é ruim. Entre janeiro e fevereiro, o Índice de Confiança do Consumidor (ICC) da FGV recuou 4,9% , ao passar de 89,8 pontos para 85,4 pontos. Este é o novo recorde negativo na série iniciada em setembro de 2005.

“A fraqueza da demanda interna e as perspectivas ruins da economia no curto prazo têm pesado mais que o câmbio, em patamares melhores, na confiança dos empresários da indústria”, afirma Campelo. “O consumidor está com pouco fôlego para comprar. Além do baque no poder de compra com a recomposição de tarifas, o momento não é muito propício com taxas de juros mais altas e bancos mais restrititos a conceder crédito”, acrescenta.

Embora o clima de pessimismo seja disseminado na indústria de transformação, a situação é mais delicada entre os segmentos ligados a investimentos, como os de máquinas e equipamentos e construção civil. Apesar da retração de 7,1% na produção industrial no acumulado dos últimos 12 meses, de acordo com o IBGE, a indústria de máquinas e equipamentos conseguiu um supreendente crescimento de 3,1% no faturamento em janeiro na comparação com igual mês do ano passado. Mas o resultado é tido como pouco animador pela Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), que projeta queda na receita para este ano.

O cenário do mercado de trabalho nas empresas da Abimaq também reforça as perspectivas negativas: houve fechamento de 12,289 mil vagas em janeiro, na comparação com igual mês de 2014.

Já a indústria de materiais de construção registrou, em fevereiro, queda de 16,4% nas vendas, em relação a igual mês de 2014. Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Materiais de Construção (Abramat), a desaceleração nas vendas gerou impactos no emprego, que recuou 10,2% na comparação com igual mês de 2014.

“O mercado no primeiro bimestre foi muito aquém do esperado. Mais da metade das vendas vem do varejo, afetado por emprego, renda e crédito às famílias. E outra parcela pelo mercado imobiliário, que tem sofrido muito com a falta de confiança de empresários”, observa o presidente da Abramat, Walter Cover.

Para os fabricantes de eletrodomésticos e eletrônicos o ano também não começou muito bem. Só em janeiro, houve queda de 14% na venda de equipamentos domésticos no atacado, em comparação com igual mês de 2014. “Inseguro em relação ao emprego, o consumidor deixa de efetuar novas compras”, afirma o presidente da Associação Brasileira de Fabricantes de Eletrodomésticos e Eletrônicos (Eletros), Lourival Kiçula.

Prova disso é o aumento dos estoques nas lojas. O indicador que mede a percepção dos empresários em relação ao nível de estoques do comércio na região metropolitana de São Paulo (RMSP), por exemplo, passou de 106,9 pontos em fevereiro para 103,9 pontos em março. Segundo a FecomercioSP, que capta a percepção dos comerciantes sobre o volume de mercadorias estocadas nas lojas e varia de zero (inadequação total) a 200 pontos (adequação total).

“A trajetória de encarecimento do crédito já vinha colocando um freio nas compras. Somou-se a isso a queda significativa na confiança do consumidor, com o mercado de trabalho mais fraco. O efeito mais evidente desse cenário de retração da demanda aparece nos duráveis, como os automóveis”, observa o economista da Confederação Nacional do Comércio (CNC), Fabio Bentes.

Em 12 meses, a produção de automóveis registra retração de 17,2% na produção e de 10,8%, nas vendas. A forte desaceleração do setor acaba puxando toda a cadeia de suprimentos na qual se destacam os segmentos chamados de transversais, como metalurgia e siderurgia, vidros, químicos, plásticos e borracha.

“O que acontece na indústria de transformação como um todo se reflete na química, pois somos uma indústria transversal. Logo, se a turma de automóveis e construção civil, principalmente, não crescer, nós não crescemos”, diz Fernando Figueiredo, presidente da Associação Brasileira da Indústria Química(Abiquim).

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