Luiz Antonio Simas: Kichute, calce essa força

O Kichute continuará vivinho da silva nas minhas mais doces e sacanas recordações

Por O Dia

Luiz Antonio Simas%3A Kichute%2C calce essa força Nei Lima / Agência O Dia

Rio - Esqueçam os tênis de grife que seduzem a garotada de hoje e custam pequenas fortunas. Sou de uma geração que na infância usava quatro tipos de calçado: Kichute, Conga azul, Bamba branco e sapatos Vulcabrás. Dentre essas opções, a minha predileção era pelo Kichute velho de guerra; preto, feito de lona e com travas de borracha.

O Kichute foi lançado à época da Copa do Mundo de 1970 para surfar na onda da expectativa brasileira com a Seleção que buscava o tri no México. Com o triunfo canarinho, o que era para ser um simulacro de chuteira para a garotada virou, ao longo da década de setenta, pau para toda obra. A meninada passou a usar o tênis para fazer qualquer coisa.

Eu usava o Kichute, com o cadarço entrelaçado na canela, para ir ao colégio, jogar futebol, pedalar na Monark Monareta, pular carniça, consultar o pediatra, soltar pipa, brincar de pique, buscar doce de Cosme e Damião em centro de umbanda, brincar no bicho da seda da Quinta da Boa Vista e o escambau. Tinha amigos que só não dormiam com o calçado em virtude da oposição aguerrida dos pais.

Ele, o tênis querido, acompanhou a experiência mais marcante da minha vida, daquelas que eu só pensava revelar ao médium de mesa branca depois de morto: calçava Kichute quando assisti à transformação de uma moça em Konga, a gorila, no Tivoli Parque, e me apaixonei de forma fulminante pela atriz que representava a mulher-macaca. Meu primeiro amor.

De Kichute eu conheci o Maracanã, ao lado do meu pai e do meu avô. Descobri, naquela tarde de domingo, que o paraíso não precisava de anjos tocando harpa; bastavam as traves, os craques e a bola correndo. O calçado era excelente também para andar de velotrol. Só não funcionava, pelo menos para mim, na hora de subir no trepa-trepa, coisa que eu fazia invariavelmente descalço, por achar que as travas atrapalhavam a escalada radical.

Essas lembranças todas me levam a uma reflexão melancólica: de repente o Kichute desapareceu das sapatarias. Que diabo aconteceu? Acho que o Kichute foi mesmo uma vítima da ditadura da moda, da cultura do efêmero e da entrada dos tênis importados no Brasil. A garotada nos dias de hoje não concebe usar um calçado com travas e amarrado na canela nem debaixo de pau.

Não tem problema; o Kichute continuará vivinho da silva nas minhas mais doces e sacanas recordações. Feito as sandálias de couro para os cangaceiros de Lampião, a chuteira de lona preta, horrenda para os padrões atuais, permanece linda na memória daquela geração de garotos, a minha, que brincava o dia inteiro nas fuzarcas da rua.

Últimas de Diversão