Cenário mais pessimista faz crescer risco de downgrade

Contração econômica para 2015 era esperada, mas agora mercado avalia que ambiente de fraco crescimento econômico, inflação e juro altos possa continuar em 2016

Por O Dia

O risco de rebaixamento do rating do Brasil voltou a ser considerado pelos mercados, com o aumento dos efeitos negativos do aperto monetário na atividade econômica e na dívida pública. A situação é agravada pelo embate entre o Executivo e o Legislativo para aprovar o pacote de ajuste fiscal, o que acaba empurrando um cenário ainda negativo para 2016.

O boletim Focus divulgado ontem pelo Banco Central (BC) mostrou que os economistas consultados continuam projetando a taxa básica de juros, atualmente em 13,75%, em 14% no fim do ano. Mas se antes viam o início do afrouxamento monetário em janeiro, agora apostam que a primeira queda virá apenas em março.

O resultado da inflação oficial em maio foi crucial para a mudança de perspectiva. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) surpreendeu ao acelerar para 0,74% em maio na comparação mensal, chegando a 8,47% em 12 meses. Com isso, a projeção do relatório Focus para a inflação no ano subiu para 8,79%, ante 8,46% na semana anterior, e já há quem tenha revisado sua perspectiva para o índice a 9% no final do ano, como Bank of America Merrill Lynch e Credit Suisse.
Para o economista-chefe da INVX Global Partners Eduardo Velho esse cenário mais pessimista faz crescer a possibilidade de downgrade do Brasil. Segundo ele, os juros de curto e médio prazo negociados no mercado futuro indicam que a Selic deve ficar no patamar de 14% até, pelo menos, junho de 2016. Além disso, o profissional estima que a retração do PIB pode atingir 2%. “Acho que a queda do PIB está subestimada no Focus mas, as expectativas devem caminhar para isso”, diz.

Para o especialista, a piora dos cenários, tanto para 2015 quanto para 2016, dá argumento para que as agências de classificação de risco de crédito rebaixem a nota soberana. “Esses parâmetros tendem a elevar a relação dívida X PIB, e também existe a possibilidade do governo rever a meta fiscal em função da receita abaixo do esperado”, diz, ressaltando, no entanto, que a meta deveria ser mantida em superávit de 1,2%. “Se isso acontecer o governo vai passar a impressão que também vai ter mais gastos”, afirma.

O economista da MCM Consultores Associados Mauro Schneider ressalta que o desempenho do balanço fiscal vem crescendo, em parte, por conta dos primeiros meses do ano que foram impactados tanto por uma arrecadação mais fraca, quanto por despesas transferidas de 2014. Além disso, a aprovação das medidas fiscais tem sido, relativamente, lenta e o resultado tem ficado “aquém do que seria necessário”. “É uma combinação que gera preocupação renovada com a trajetória da dívida pública”, diz.

Schneider ressalta ainda que o cenário negativo já era esperado, mas a questão é a intensidade. “Era de se supor que haveria contração, que a arrecadação perderia com isso, que a dívida pública cresceria em 2015. Agora, vai passando o tempo e o PIB cai mais do que o imaginado, nem se vê a recuperação esperada em 2016 e o desempenho fiscal está um pouco pior do que o imaginado”, diz, lembrando ainda que o governo tem tido dificuldades para aprovar o ajuste fiscal. “Há um apoio político mediano, algumas iniciativas avançam, outras não, mesmo não sendo surpreendente, vai forçando uma reavaliação”, diz.

O professor do MBA Executivo do Insper Otto Nogami pondera ainda que esta demora em aprovar o ajuste fiscal também começa a impactar nas contas externas. “Essa paralisia que está ocorrendo na economia começou a comprometer as contas externas, começa a ter a um balanço de pagamento desequilibrado”, diz.

Mais otimista, o economista-chefe da Gradual Investimentos André Perfeito, acha pouco provável o Brasil sofrer downgrade agora. “O Brasil tem feito esforço relevante na conta de política fiscal e monetária. O crescimento da economia baixo já era esperado. O Brasil já está fazendo o que eles pediriam para o Brasil fazer. Não faz sentido rebaixar num momento em que o país está fazendo a lição de casa”, diz.

Para Perfeito, um rebaixamento de rating por parte de qualquer agência neste momento seria como uma chantagem contra o governo. “Se der o downgrade a situação fica bem pior. Beira quase uma chantagem, eu entendo que as agências fazem um bom trabalho técnico, mas do jeito que está sendo colocado parece uma chantagem”, pondera.

Velho também concorda que a mudança de rating vai agravar ainda mais a situação do país. “Com certeza o patamar do dólar muda, ele não está precificando o rebaixamento. Além disso, estamos próximos do início do aperto monetário nos Estados Unidos, aqui temos indicadores fracos e o aprofundamento do desemprego, só irá piorar”, pondera.

Schneider lembra ainda que o movimento elevaria o prêmio de risco brasileiro e o fluxo de recursos para o país diminuiria. 

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