“O empreendedorismo está muito glamourizado”, afirma Bel Pesce

Bel Pesce, empreendedora e fundadora da escola FazInova, lança “A menina do Vale 2” com tour de palestras pelo país

Por O Dia

O currículo de Isabel Pesce Mattos, de 26 anos, é de fazer inveja a qualquer jovem empreendedor. Aos 17 anos, Bel foi estudar no Massachusetts Institute of Technology (MIT), trabalhou no Vale do Silício, onde fundou algumas startups, como a Lemon Wallet, escreveu dois livros - “Procuram-se super heróis” e a “A menina do Vale”, esse com mais de um milhão de downloads em menos de três meses, entrou para diversas listas de jovens brasileiros mais promissores e admirados... De volta ao Brasil, Bel fundou, em 2013, a FazInova, escola de empreendedorismo, em São Paulo, que já conta com 50 mil alunos. No dia 8 de setembro, a menina do Vale começa um tour de palestras pelo país para lançar o segundo número de seu livro mais famoso, que também poderá ser baixado gratuitamente. No novo livro, Pesce diz que quer mostrar a responsabilidade de quem empreende e que, para começar um novo negócio, é preciso “ter estômago”.

O que mudou na sua vida e na sua carreira do primeiro livro para o “A menina do Vale 2”?

Até 2010, por mais que eu gostasse de empreender, eu sempre tinha algum outro trabalho junto com o empreendimento que eu tinha criado. Quando comecei a Lemon [Wallet], foi a primeira vez que fui para esse mundo do empreendedorismo 100%. Agora que eu voltei para o Brasil, estou no mundo empreendedor sem investimento, o que é mais difícil ainda. Então, eu aprendi de maneira mais completa o que é realmente se arriscar 100%, se jogar nesse mundo. Mudou também com o que eu trabalhava. Até 2013, era muito com coisas digitais e a FazInova é um business muito interessante, porque tem o digital, uma plataforma online, mas tem também o ensino. É uma escola, então, além da programação, da parte que eu gosto muito, que é a digital, tem um business de conteúdo, um business operacional. A mudança para o Brasil, entender as diferenças entre lá e cá, também ajudou bastante. O primeiro livro procurava inspirar as pessoas, eram histórias verdadeiras, reais, rápidas, direto ao ponto. Eu quero essa pegada no segundo, mas quero levantar a bandeira da responsabilidade de quem empreende. O empreendedorismo está muito mistificado, muito glamourizado para muita gente. Eu quero mostrar a “real”, que é preciso ter estômago para empreender, o quanto empreendedorismo e responsabilidade andam juntos, o quanto você sai na frente se você entende isso e como é o dia a dia de verdade. Foi nessa pegada que eu fiz “A menina do Vale 2”.

Você acha que há uma dificuldade de os jovens assumirem responsabilidades?

Às vezes, não são nem as dificuldades. A gente não percebe o quanto engloba a parte comportamental para você realmente conseguir criar um produto, uma estrutura e agregar as pessoas certas. Meu background é super nerd. Eu sempre fui focada em conhecimento, mas, quando olho para trás, sempre vejo que, mais que qualquer outra coisa, foram as habilidades comportamentais que mais me ajudaram a abrir portas, a motivar equipe, a criar um produto.Quando eu digo habilidades comportamentais, estou falando desde liderança até autoconhecimento, até entender o que te motiva, o que te faz feliz. Eu acredito muito nisso e,quando comecei a FazInova, foi pensando nisso, em criar conteúdos relevantes nessas fontes. Um amigo me falou uma frase que achei tão legal. Ele disse: quando eu tento entender o que eu realmente fiz como fundador de uma empresa, isso se resume a quatro coisas: ficar com dinheiro no banco para não quebrar, trabalhar no problema certo, recrutar o time certo e correr muito rápido quando você tiver essas três coisas. Achei essa definição genial. Muita gente fala que precisa de dinheiro para começar. Não vamos ser hipócritas, você tem que ter dinheiro. Mas os outros dois quesitos - trabalhar no problema certo, com as pessoas certas - são muito mais difíceis. Às vezes, isso é muito glamourizado. As pessoas ficam buscando investimento sem ter uma equipe boa, sem nem saber se o problema é real. As suas atitudes comportamentais de produtividade, de autoconhecimento e de se relacionar bem ajudam muito.

Qual seu próximo passo?

Ainda falta muito. Para mim, o empreendedor é a pessoa que cria produtos, serviços, projetos que tocam vidas. O empreendedor tem sucesso quanto mais vidas tocar. E quanto mais positiva for essa influência, melhor. O meu sonho é tocar muitas vidas de maneira muito positiva. A Lemon já teve um desfecho, a gente vendeu para uma empresa que se chama LifeLock. A FazInova tem muito o que fazer. A gente tem 50 mil alunos e cresceu rápido. Mas imagina quando a gente lançar em inglês, em outras línguas, com mais conteúdo, com uma rede social mais completa, o que a gente está fazendo agora. Tem um potencial de milhões e milhões de interações. E os livros também têm muito o que crescer. Eu vou continuar nessa linha de comunicadora e empreendedora. Tenho muitos outros sonhos, mas esses vão continuar em foco.

Com a criação da FazInova, você pretende impactar um bilhão de pessoas. Como pretende fazer isso?

É meu sonho, viu? Mas isso em 20 anos, não é da noite para o dia, de maneira alguma. Até agora, a FazInova tocou entre quatro milhões e cinco milhões de brasileiros. Alguém que tenha feito um curso, visto um vídeo, baixado algum conteúdo gratuito que a gente criou. Fico muito feliz com isso. A FazInova é muito focada em conteúdo. O que a gente está fazendo agora é uma mudançapara transformá-la numa rede social que te ajude a realizar seus sonhos por meio de conteúdos e ferramentas relevantes, mas deixando bem claro que 99% do esforço têm que vir de você. Meu sonho é que a FazInova seja uma startup do Brasil para o mundo, com presença global. Começou pequenininha, porque eu quero testar cada uma das coisas que a gente faz, cada um dos conteúdos e das funcionalidades, mas acho que tem um potencial bem grande porque as necessidades são universais.

Você diz que acredita que haverá uma grande mudança no modelo de educação. Como vê o modelo de educação no futuro?

Eu acho que o modelo que a gente tem agora vai entrar em colapso, se as universidades não estão surtadas, já passou da hora de surtar. Não consigo imaginar o jovem daqui a dez anos prestando vestibular e vendo qual carreira ele vai escolher. Vejo uma chance [para as universidades] de se reinventar. Vejo nisso uma boa oportunidade, não de falência ou algo que vá se perder. Hoje em dia, uma pessoa com 17 anos, que está escolhendo qual vestibular quer prestar, em média, vai ter cinco carreiras na vida. Três delas não existem ainda. Como uma pessoa pode tomar uma decisão, ficar quatro, cinco anos em aulas, muitas das quais sem qualquer ligação com o futuro delas? Alguém que trabalha com mídias sociais não existia há dez anos, com mobile, com programação web. Eu acho que é muito difícil ter, realmente, uma formação específica de conhecimento que te ajude a crescer na vida. Você precisa de uma formação ampla, que te ajude aprender a aprender para depois você se aprofundar em alguma coisa.

Você estudou no Massachusetts Institute of Technology (MIT), onde se formou em Engenharia Elétrica, Ciências da Computação, Administração, Economia e Matemática. Que tipo de formação você considera ideal para quem quer empreender?

Primeira coisa: tem que deixar claro para a galera que não existe fórmula mágica e que não interessa o conteúdo ou a ferramenta que você tenha, a maior parte tem que vir de você, de sua atitude. Com isso claro, acho que a maneira que pode mais ajudar é com ferramentas mais objetivas, sem enrolação. Tem um curso na FazInova sobre canvas; outro sobre investimentos. O cara aprende em duas horas tudo que ele precisa sobre investimento para poder fazer um pitch decente. Ferramentas são importantes. Conteúdo é importante, mas não precisa estudar seis, sete anos de conteúdo. E sempre colocando a mão na massa. Eu aprendi uma coisa ano passado que transformou minha vida. Quando eu voltei para o Brasil e queria criar cursos, estavasuperpreocupada com o conteúdo porque as pessoas têm uma expectativa superalta, porque eu vim do MIT, do Vale do Silício. Tem uma coisa mais importante que conteúdo: é como você faz as pessoas se sentirem. E, por último, conexões. Ninguém aprende sozinho e ninguém nunca vai saber fazer tudo. Claro que é válido aprender mais sobre administração, economia, mas o quesito comportamental é a base de tudo e potencializa cada um dos aprendizados específicos. Eu acho que uma faculdade que só vai ser específica acaba perdendo a oportunidade de fazer a pessoa aprender a aprender.

O projeto Legado A menina do Vale começa com um tour de palestras pelo país, que será financiado coletivamente. Quais serão os próximos passos desse legado?

A maneira como mais posso contribuir é mostrando que sou uma pessoa totalmente normal que fez algumas coisas legais por meio dessa combinação de atitude e de correr atrás de conhecimento e de ferramentas. O legado pode crescer para ser ainda maior, com informações mais específicas para cada um dos ramos. A ideia é passar por todas as capitais do Brasil, não só lançando um livro, não só fazendo uma palestra, mas aprendendo coisas sobre o Brasil e, depois, criando uma apresentação que vai estar disponível para o Brasil, dando sugestões, de passo a passo, coisas mais tangíveis do que a gente pode fazer como país, como empresários, executivos, funcionários para que o Brasil possa ser mais protagonista.

O legado tem o tema de como você pode melhorar o país. Para você, o que ainda é preciso melhorar?

Falta bastante coisa. Eu viajei bastante tentando entender algumas peculiaridades que cada lugar tem em relação a abrir uma empresa ou em relação às pessoas errarem e crescerem. Eu vejo dois lugares principais onde a gente pode crescer: um é mais estrutural, desde diminuir burocracia até melhorar as leis tributárias e trabalhistas. Acho que tem muita coisa para fazer desse lado. É complicado. Há um jogo de interesses difícil, mas acho que a gente pode crescer, sim, porque até quem tem interesse por ganhar algo no curto prazo ganharia mais no longo prazo se deixasse as empresas florescerem. O outro lado é nosso modo de pensar. Por que o Vale do Silício é tão interessante? Por que no Vale do Silício florescem tantas startups? Porque eles têm tolerância ao erro. É da natureza de empreender. Você não estaria inovando se tivesse tomando uma decisão que todo mundo já tomou. A tolerância que o Vale tem gera muito mais gente que quer arriscar. É probabilístico. Mais gente arriscando, mais gente errando, mais gente acertando e mais empresas florescendo.

Este ano, você foi escolhida como um dos dez líderes brasileiros mais admirados por jovens pela Cia. de Talentos. Quem você admira? Quem são suas referências? Por quê?

Entrar para essa lista foi uma doideira, porque alguns dos líderes que eu admiro muito estão lá. O Jorge Paulo [Lemann] escreveu o prefácio do livro. Não dá para colocar em palavras o quanto eu o admiro, o quanto ele me dá energia para fazer mais. Não só pelas empresas que ele fez, mas o quanto ele é ligado em educação e acredita em meritocracia. Alguns líderes já morreram. O Ayrton Senna mudou minhas referências sobre o que é se esforçar. E o Walt Disney. Eu acho incrível. Já passei muito tempo lá estudando a Disney. Ele criou uma empresa absurda em cima de um modelo de negócios que é criar sorrisos.

Veja onde serão as palestras de Bel Pesce no site www.fazinova.com.br/legado

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