Marcus Tavares: Autoavaliação

Quase sempre o fiel da balança tende a ficar para o lado positivo quando pensamos nos conteúdos, naqueles conhecimentos que apresentamos, mediamos e trabalhamos

Por O Dia

Rio - É fato: quando o ano termina, nós, professores, costumamos fazer uma autoavaliação mais profunda sobre o período. Afinal, qual foi o balanço? O saldo? Positivo ou negativo? Alcançamos nossos objetivos? Conseguimos promover o ensino e a aprendizagem? Quase sempre o fiel da balança tende a ficar para o lado positivo quando pensamos nos conteúdos, naqueles conhecimentos que apresentamos, mediamos e trabalhamos.

Mas o desafio maior, sem dúvida, são os valores, que, ao lado dos conhecimentos, são cada vez mais imprescindíveis de serem dialogados, vivenciados, experimentados e praticados na sala de aula — um microcosmo da sociedade. No complexo dia a dia em que vivemos, muitas vezes, tais valores são muito mais significativos do que os conteúdos disciplinares, de certa forma acessíveis a qualquer indivíduo com o advento das tecnologias digitais.

Praticar, vivenciar e experimentar valores como respeito, amizade, solidariedade e responsabilidade não é nada fácil. Não gosto e não podemos rotular a geração atual — a complexidade e diversidade são tamanhas e heterogêneas —, mas ela muitas vezes se apresenta na figura de jovens sabedores de seus direitos, mas descuidados de seus deveres. Talvez isso aconteça, em parte, devido a todo um discurso de empoderamento desses adolescentes, que tudo podem e sabem. Não é bem assim. Esse empoderamento leva a uma confusão entre duas palavrinhas: autonomia e liberdade.

Certa vez li que autonomia é a liberdade comandada pela razão. Autonomia é obedecer ao mando da própria consciência, do autogoverno, sem desprender-se de uma ética, ou seja de limites, de ponderações. Em outras palavras, é pensar no outro e refletir e medir consequências e impactos das ações.

Como instituição ainda presente e necessária, cabe à escola sistematizar e praticar tais valores. Um aprendizado que não começa e termina nela ou com ela. Pelo contrário. Mas que ganha intensidade e, sinceramente, muitas angústias. Às vezes, o sentimento é que pouco ou quase nada a escola contribuiu para esta reflexão. E, a meu ver, não que não tenha estabelecido estratégias e planejamentos, mas por um não entendimento ou amadurecimento dos próprios estudantes. Coisas da idade? Pode ser. E se for, menos mal. Melhor acreditar assim para que, no próximo ano, possamos ampliar o diálogo.

Marcus Tavares é professor e jornalista especializado em Educação e Mídia