Moacyr Luz: Públicos passeios

Percorrer calçadas e bares do Rio é um passeio pela história da cidade

Por O Dia

Rio - Algumas calçadas não me deixam conhecer a cidade. São tantos buracos que, de uma caminhada sem direção, perco a paisagem olhando fixo à passarela urbana e seus declives eternos. Por conta desse cuidado, só agora descobri o nome de uma rua que liga à Ouvidor à Rosário: Rua dos Mercadores. Que beleza! Dois bicheiros no lado par e um camelô de guloseimas, fechando o arco. Mais carioca, impossível.

As lajotas no logradouro desse percurso representam o lastro das antigas naus portuguesas. Ancoravam as rochas, voltavam as madeiras, as mucamas e seus seios sem silicones. É o meu itinerário.

Na Rua do Rosário um francês, sem as pretensões do Almirante Villegagnon, invade o aroma lusitano dos primeiros anos, servindo patês, brioches e outras criações com circunflexos acentos no nosso suburbano paladar. Frederic é o dono das caçarolas, do cassulê. Atravesso em direção às costas do Centro Cultural Banco do Brasil. Procuro Antônio Rodrigues, o dono do ‘Cais’, um belíssimo restaurante dessa região histórica do Centro do Rio. Se Dom João VI fosse vivo, não duvido, seria o primeiro cliente. Ausente, Antônio ainda está no Ceará, visitando Hidrolância, cidade natal. Somos amigos há muitos anos, desde o ‘Marajá’, na Tijuca, passando pelo ‘Moringuinha’, na Cinelândia.

Fincado na esquina da Jayme Costa, de frente pro Café Teatro Rival, trecho consagrado como Beco da Cirrose, o bar registrava na nota fiscal a razão social de Carlitos. Um dia, ousado, Antônio comprou o Belmonte, no Flamengo. Esse ‘buteco’ com um enorme balcão de fórmica preenchendo o salão, vendia fartos sanduíches de carne assada até, resistir, derradeiro, entregue as blattodeas. Fui à abertura do novo estabelecimento. O verniz das cadeiras não secou a tempo e muita gente levou nas costas da camisa preferida a tinta fresca da inauguração. Antonio abriu outros tantos bares da marca, assumiu ‘picotes’ pés-sujos, estruturais ‘gengibres’ até amarrar com as cordas da sua experiência, elegantes portos da boemia feito o ‘cais’ dessa tarde ensolarada.

Voltei pelo Arco dos Teles, aonde, contam os últimos vizinhos, morou a pré-tropicalista Carmem Miranda. A claridade no panteão do General Osório atesta que a sombra da antiga Perimetral, despareceu. Há poeira e esperança no caminho pro Albamar. O restaurante herdou um torreão,do abatido Mercado Municipal da cidade, uma das pontas que as angulavam as ferragens nesse tipo de edificação, e ali sobrevive a dias melhores. Da janela vê-se a Baía de Guanabara, o Santos Dumont, que lindo. Me iludo com uma mancha nas águas espumantes, penso ser um dos golfinhos da bandeira carioca saltando aos meus olhos. Era um pneu de caminhão comprovando a gravidade.

A tarde cai feito o viaduto. Um trator remove o passado abrindo caminho pros novos trilhos urbanos. Preciso ir, tenho hora no outeiro. Pra semana encontro o Antônio, o meu guru de pastéis recheados, dos jilós e moelas nas vitrines suadas. Promete.

E-mail: moaluz@ig.com.br

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