Ricardo Cravo Albin: País vive um estado de auê

O nome ‘auê’, que significa algazarra ou fuzarca, purifica-se e muda radicalmente de sentido neste show eloquente

Por O Dia

Rio - A palavra auê, uma quase interjeição de sonoridade exótica, significa confusão, algazarra, mixórdia. Não posso deixar de aplicá-la ao estado de penúria que o Estado brasileiro atingiu. Minha intenção aqui era destilar o exato sentido de confusão para verter lágrimas pelo país, tal o estado de auê a que chegamos na economia, com todas suas decorrências assustadoras. 

Mas fui assistir a um musical (no Sesc Copacabana) chamado exatamente ‘AUÊ’. E a partir daí, apraz-me louvar a palavra. Passo a empregá-la com a satisfação e a largueza dos sentimentos de beleza, de brasilidade, de esperança, de um novo e surpreendente despertar de consciência estética para exibir a música de hoje.

Não costumo comentar nesta página espetáculos, muito menos a música popular, renitente paixão minha, por décadas. O AUÊ é um elenco de rapazes que tocam instrumentos diversos, alguns ligados diretamente ao Brasil (tambor de congado e sanfona). Cantam a paixão e a liberdade, celebrando a cultura musical do país e acarinhando o regionalismo tão fecundo, por vezes tão envergonhado. Pois fazem disso uma celebração eletrizante e sem paralelo. Os sete cantores-instrumentistas se transfiguram em atores, dançarinos, palhaços e acrobatas. A energia de cada cena, a elasticidade dos corpos e a precisão dos movimentos vão tomando a plateia em um crescendo arrebatador.

O intenso trabalho para a preparação corporal daqueles que eram apenas instrumentistas há de ser tributado à diretora Duda Maia, que não conheço e a quem reverencio. Entre nomes que desconhecia, vejo alguns luminares de minha estima, como Moyseis Marques (não em cena) e Alfredo Del Penho (que atua, e também é autor dos arranjos). O milagre da comunhão entre eles, soube agora, se origina da Companhia Barra dos Corações Partidos, a mesma que exibiu os aclamados musicais ‘Gonzagão – A Lenda’ e ‘Opera dos Malandros’.

Creio nunca ter assistido antes a uma armação cênica em que os instrumentos se grudam aos corpos dos músicos, e estes se transformam em uma só unidade, projetando raríssima movimentação. O nome ‘auê’, que significa algazarra ou fuzarca, purifica-se e muda radicalmente de sentido neste show eloquente, em que se perfila um rigor absoluto em tudo. Portanto, nada a ver com o assustador auê nacional.

Ricardo Cravo Albin é presidente do Institituto Cultural Cravo Albin


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