Crise econômica faz planos de melhorias em Itaguaí naufragarem

Cidade agora amarga histórias de desemprego e falta de oportunidades para os moradores

Por O Dia

Rio - Localizada em uma área estratégica da Região Metropolitana, Itaguaí vem desde a década de 1980 sendo incluída em planos que prometem dar uma guinada no desenvolvimento econômico da cidade. Como um polo petroquímico, que chegou a ser lançado e ganhou licença do Ibama, mas nunca saiu do papel. O último deles, iniciado em 2006, parecia ser ainda mais ambicioso e envolvia a construção de três submarinos pela Marinha. No entanto, a crise econômica estagnou os planos grandiosos, gerando uma grande onda de recessão e desemprego.

O Porto Sudeste está pronto%2C mas ainda não há previsão para começar a operarEstefan Radovicz / Agência O Dia

O programa de construção de submarinos, tocado pela Marinha, sofreu cortes profundos, como mostrou o ‘Informe do DIA’. Em 2013, foram R$ 943 milhões. No ano passado, mais R$ 1,6 bilhão. Mas até julho deste ano, a verba não passou de R$ 352 milhões, segundo dados do Portal da Transparência. Além disso, o Porto Sudeste, idealizado pelo ex-bilionário Eike Batista para a cidade, previsto para começar a operar em julho, ameaça “naufragar” sem um grande contrato por conta da redução das exportações de minério. A queda no valor da commoditty afetou drasticamente também o Porto de Sepetiba, onde Vale e CSN têm terminais de exportação.

Segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho, foram 3.753 demissões de janeiro a setembro, impactando fortemente a economia local. Prova disso são as extensas filas que se formam na porta do único Centro de Oportunidades que a cidade possui. “Tem dia que há mais de 150 desempregados aqui”, conta o mecânico Fabiano da Rocha, de 33 anos, que há oito meses tenta se recolocar no mercado.

“Quando fizeram essas obras, achamos que teríamos oportunidades, mas nada aconteceu”, reclama o maçariqueiro Jader de Andrade, 53, demitido da Odebrecht. Segundo ele, empresas que chegaram a Itaguaí oferecem vagas apenas para pessoas que moram fora da cidade —boa parte vem da vizinha Santa Cruz, bairro da Zona Oeste carioca, e de outras cidades do estado. “Aqui só entra quem indicam”, denuncia.

Centenas de desempregados em Itaguaí tentam recolocação no mercado de trabalho%2C mas encontram dificuldades em achar novas vagasEstefan Radovicz / Agência O Dia

Os dados do Caged mostram um quadro de recessão no município, pois o principal empregador — a construção civil — demitiu 2449 trabalhadores (queda de 32,45%). Segundo o economista Ranulfo Vidigal, Itaguaí representa 7,5% do PIB estadual, um dos cinco municípios mais importantes da Região Metropolitana, pois é o quarto em participação no emprego industrial. “A queda das matérias-primas (como o minério de ferro) pela crise internacional afeta o desempenho recente da atividade portuária local”, afirma.

Jorge Vaz, 32, aprendeu a pescar com o pai, que tinha nove barcos na Baía de Sepetiba. Apenas um restou. “Tinha muita variedade, mas a Baía agora está tão poluída, que sumiram todos os peixes.” Para conseguir seu sustento, ele joga as redes em alto mar, mas lembra que no passado encontrava várias espécies na própria baía. “Tem muita gente parando de pescar. Acho que sou um dos últimos.”

Investimentos frustrados

Em 1980, Itaguaí era apontada como futura sede do Comperj, que acabou indo para Itaboraí. Décadas mais tarde, parece que as duas cidades estão fadadas ao mesmo destino, um ‘eldorado’ fracassado, já que em ambas centenas de trabalhadores de todo o país viram oportunidades de emprego e renda irem ralo abaixo.

O Porto Sudeste custou R$ 4 bilhões, com capacidade para exportar até 50 milhões de toneladas de minério de ferro por ano. Eike Batista vendeu 65% da empresa para o operador global de terminais Impala e para a Mubadala Development Company. Hoje, a MMX Mineração e Metálicos S.A, de Eike, possui 35% de participação no porto.

O Arco Metropolitano, criado para escoar os produtos que viriam por Itaguaí e que custou R$ 1,9 bilhão — quatro vezes mais que o previsto — está sitiado por matagais, buracos e sinalização precária.

Empresas se explicam sobre a crise

Segundo a Marinha — que está construindo três submarinos em parceria com a Odebrecht —, os pescadores da região foram indenizados. A Nuclebras Equipamentos Pesados S/A (Nuclep) informou que entregou encomendas e por isso diminuiu o número de terceirizados. A Odebrecht esclareceu que sempre priorizou a contratação do maior número de trabalhadores da região para atuar em suas obras, impulsionando a geração de empregos e incentivando a economia local. Já a Vale informou que sua produção bateu recorde de 248 milhões de toneladas, de janeiro a setembro, mas não comentou sobre demissões.

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