Eugênio Cunha: Os jardineiros da educação

Ter esperança e recomeçar são constantes movimentos entre ensinantes e aprendentes

Por O Dia

Rio - Adélia Prado escreveu: “O que não parece vivo aduba. O que parece estático espera”. Para mim, deixou duas lições: que é preciso sempre ter esperança, que é preciso sempre recomeçar. Penso, em particular, na educação, pois ter esperança e recomeçar são constantes movimentos entre ensinantes e aprendentes.

Imagino que o educador nasce com a utopia na alma e, por conta disso, não se detém. É difícil um coração utópico que não se lance a caminhar, mesmo diante de desafios quase impossíveis. Por isso, prospera, por isso se recria, por isso, tem esperança. A utopia é andarilha.

Lembro-me de certa professora que lecionava numa pequena cidade do interior. Em razão das brigas políticas locais, perdeu sua sala de aula, sua escola. Lá, naquele sol escaldante e chão árido, ela e seus alunos encontraram numa árvore da praça pública uma sala de recursos. Sem materiais didáticos, carteiras, refeitório e até banheiro. O mínimo necessário não havia: o dízimo das condições elementares.

Assim que ficaram sem a escola, foram para a Igreja, mas houve uma enchente, e o prédio ficou inadequado para o uso. Contudo, havia uma casa grande, um pouco longe dali, nada tão difícil que um jipe ou cavalos não superassem. Mas não poderiam ficar na casa, talvez no estábulo, juntos com os animais, sentados sobre montes de capim. Para lá foram.

Depois de alguns dias, o proprietário pediu o lugar. Havia vendido para uma indústria de leite. Foram então para frente do cemitério, onde havia uma marquise longa e larga o suficiente para abrigá-los. Seria um bom lugar se lá já não houvesse o feirante, que de manhã anunciava aos berros seus produtos. O jeito seria ficar dentro do cemitério, bem distante da porta de entrada, o mais longe possível do barulho e da movimentação da rua. Talvez, no silêncio dos túmulos, mas logo viram que não daria para ser ali: a escola teria que buscar outro lugar que pulsasse vida.

Então, saíram em busca de um lugar que, pelo menos, os abrigasse nos dias de calor naquele chão árido e vermelho: acharam uma árvore na solitária praça pública da cidade. “Encontramos um jardim e nos abrigamos debaixo de sua árvore”, disse a professora. É dessa forma que muitos professores se tornam jardineiros, adubando vida e esperança.

Eugênio Cunha é professor e jornalista

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