Luiz Antonio Simas: Malandro maneiro

Devemos a um mexicano a criação de uma verdadeira instituição carioca: o jogo do bicho

Por O Dia

Rio - Brasil e México caíram no mesmo grupo na Copa do Mundo de 2014. Admito que terei dificuldades de torcer contra o México. Sou particularmente simpático aos mexicanos. Para começar, nasci em um Dia de Finados, data que os mexicanos festejam como se fosse Carnaval. Lembro também que devemos a um deles a criação de uma verdadeira instituição carioca: o jogo do bicho. Conto como foi.

O Barão de Drummond, eminência política do Império, era fundador e proprietário do Jardim Zoológico do Rio de Janeiro. A manutenção da bicharada era feita com generosa subvenção mensal do governo monárquico, suficiente, diziam as línguas ferinas, para alimentar toda a fauna tropical por dez anos. Quando a República foi proclamada, em 1889, o velho Barão ficou mais perdido que cebola em salada de fruta. Cogitou fechar em definitivo o zoológico, em 1893, por falta de verba.

Foi aí que um mexicano, Manuel Ismael Zevada, morador do Rio e fã do zoológico, sugeriu a criação de uma loteria que permitisse a manutenção do estabelecimento. O princípio era baseado em certo “jogo das flores”, popular no México. Bastava apenas trocar as flores pelos animais. O frequentador que comprasse um ingresso de mil réis para o zoo ganharia 20 mil réis se o animal desenhado no bilhete de entrada fosse o mesmo exibido em um quadro horas depois. O Barão mandou pintar 25 animais e, a cada dia, um quadro subia com a imagem do bicho vitorioso.

A moda pegou. Dezenas de cariocas iam ao zoológico com a finalidade de comprar os ingressos e aguardar o sorteio do fim de tarde. De lá pra cá o jogo se popularizou, apaixonou multidões, virou contravenção, firmou-se no imaginário popular e confundiu-se com os desfiles das escolas de samba a partir de bicheiros que viraram mecenas das agremiações. Descambou, também, para outras atividades ilícitas nada recomendáveis. O mexicano Zevada, malandro maneiro, certamente não sabia do furdunço que estava criando.

Nei Lopes, a meu juízo o maior artista e pensador brasileiro vivo, lançará no dia 28 de março o ‘Poétnica’, livro reunindo 40 anos de produção poética, em caprichada edição da Mórula Editorial. A festança será no Clube Renascença, templo do samba no Andaraí, a partir das 20 horas. Não bastasse isso, o mestre é ainda parceiro de Zé Luiz do Império em ‘Malandros Maneiros’, samba sobre o jogo do bicho gravado por Roberto Ribeiro e inspiração para o título desta coluna. Estarei no lançamento para, como carioca, bater cabeça pro Seu Nei, o maior de todos. É coisa fina, sinhá!

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